José Arruda: "Ainda há muitos veteranos com stress de guerra"

José Arruda é o presidente da Associação de Deficientes das Forças Armadas

A importância do apoio aos militares em matéria de saúde mental foi uma das grandes bandeiras da Associação dos Deficientes das Forças Armadas (ADFA), fundada em 1974 e presidida por José Arruda.

Qual a importância do novo centro de saúde mental no Hospital das Forças Armadas (HFAR) para os veteranos de guerra?

Reputamos como muito importante a abertura daquele serviço de apoio psicológico e de psiquiatria. Até agora o serviço no HFAR era feito fora... havia lá um apoio, mas muito reduzido. O hospital fica mais militar ao ter esta valência, porque temos de pensar nos reformados que fizeram a guerra colonial e agora estão mais bem servidos, mas também nos que agora participam nas novas missões de paz e de cooperação. São missões difíceis e alguns necessitarão de apoio psicológico e psiquiátrico.

Como é que a ADFA se articula com o HFAR nesse domínio?

Muitos dos nossos associados também passam pelo HFAR, mas na ADFA funciona a rede nacional de apoio ao stress de guerra, com um polo em Lisboa e outro no Porto...

Os DFA podem continuar a ir à ADFA?

É uma escolha das pessoas irem ao HFAR ou serem atendidos aqui. A rede nacional é para os que ainda não foram qualificados como DFA, que se queixam de alguns sintomas. Temos muita gente a fazer exames de avaliação... no ano passado foram dadas, a nível nacional (em Lisboa, no Porto, Madeira e Açores), 694 consultas de psicologia e 801 de psiquiatria. Estas consultas vão iniciar os processos ou permitem fazer requerimentos ao HFAR. Agora muitos dos que estão qualificados não querem ir para uma instituição militar e preferem ter só acompanhamento connosco. Quem vive em locais distantes, por exemplo em Bragança, também não terá facilidade em ir ao hospital militar e opta por ser seguido pelo médico de família.

Ainda há muitos veteranos com diagnóstico de stress de guerra?

Muitos DFA ainda continuam a ter esse diagnóstico, ainda há um número razoável de quem fez a guerra colonial. Em 2016, dos cerca de 200 qualificados como DGFA, 25% foram-no com stress de guerra. E metade dos 87 qualificados já este ano como DFA também. Isto significa que ainda é preciso muito HFAR e um bom HFAR... confiamos no ministro da Defesa e no general Pina Monteiro, que tem o pelouro do hospital. Aquele centro é muito importante porque estamos mais velhos e mais doentes. Para os que vão agora também é preciso porque são missões de risco e necessitam de apoio... a condição militar é algo muito sério, merecemos respeito e consideração.

Como eram atendidos os militares quando regressavam da guerra colonial?

As questões do stress de guerra apareceram nos anos 1980. Havia alguns diagnosticados com neurose de guerra, mas não havia nada. A instituição militar tinha um serviço de psiquiatria mas... o regime dizia que a guerra não fazia mal a ninguém, mas felizmente veio o 25 de Abril e nasceu a associação. Depois apareceu a APOIAR e a voz autorizada do [psiquiatra] Afonso de Albuquerque, que trouxe a experiência dos EUA. Já houve gente qualificada a título póstumo, mas hoje as coisas caminham noutro sentido, para melhor.

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