As nuvens negras adensam-se sobre os desafios que a Alemanha enfrenta

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Este vai ser um ano difícil para a Alemanha, um ano em que as políticas do passado se vão revelar insustentáveis. A mais insustentável de todas foi o convite de Angela Merkel para se abrirem as portas aos refugiados sírios sem limites.

A chanceler alemã ou avaliou mal o efeito ou agiu imprudentemente - ou as duas coisas. Alguns meses e um milhão de refugiados depois, o descontentamento cresce dentro da União Democrata Cristã, o partido de Merkel, e no país em geral.

Gerhard Schröder, o seu antecessor social-democrata, manifestou-se na semana passada contra esta política exatamente com os mesmos argumentos que a ala direita do próprio partido de Merkel: a Alemanha não consegue absorver um número tão grande de pessoas. Mais de um milhão de refugiados chegaram ao país em 2015. Neste ano poderá ser o dobro e o mesmo novamente no próximo - mais ainda se incluirmos os familiares que acabarão por se seguir.

É tentador pensar nos refugiados e migrantes como uma nova força de trabalho. Mas neste caso isso simplesmente não é verdade, pelo menos não por enquanto. A maioria das pessoas que chegam à Alemanha não têm as habilitações necessárias para o mercado de trabalho local. Elas irão entrar no setor dos baixos salários da economia e reduzir os salários, produzindo outro choque deflacionário. Esta é a última coisa de que a Alemanha e a zona euro precisam agora.

Penso que essa política irá mudar em algum momento deste ano. O que eu não vejo, no entanto, é um golpe político bem-sucedido contra a sra. Merkel vindo de dentro do seu próprio partido. O que a protege é a grande coligação com a União Social Cristã e o SPD. Não há maioria à sua direita, nem à sua esquerda, deve dizer-se.

O segundo desafio é a crise económica nos mercados emergentes. Há poucos grandes países tão dependentes da economia global como a Alemanha, e poucos onde há tão pouca consciência desse facto, pelo menos no debate público. A Alemanha tem um excedente orçamental de 8% do produto interno bruto. Uma recessão global tende a afetar as empresas industriais alemãs com um atraso de um ou dois anos, porque muitas operam em setores como maquinaria e instalações em que os contratos plurianuais são habituais. Mas os ciclos de negócios alemão e global acabam por começar a sincronizar-se novamente. Este será o ano em que tal começa a acontecer.

O terceiro desafio para a Alemanha em 2016 é o das consequências do escândalo das emissões da Volkswagen. Este poderá ser o maior choque de todos, porque a Alemanha tem estado excessivamente dependente da indústria automóvel desde há muito tempo. Na semana passada, as suspeitas caíram sobre a Renault, quando os escritórios do fabricante de automóveis francês foram invadidos pelas autoridades. Esta não é a crise de uma única empresa, portanto, mas de toda uma indústria. Também não é apenas um problema alemão; é um problema europeu. Parece que a VW se comportou de forma mais imprudente do que os outros e vai pagar um alto preço pelo seu comportamento. Perante o quadro geral, é quase irrelevante se as ações legais nos EUA e na Alemanha irão enfraquecer a VW ou levá--la à falência de imediato.

A verdadeira ameaça para a VW e para os seus concorrentes europeus não vem do sistema de justiça dos EUA, mas dos consumidores que entendem muito melhor do que antes a relação entre o desempenho de um carro, o seu preço e as emissões. Esta é uma história sobre uma indústria envelhecida a tentar desesperadamente agarrar-se a níveis insustentáveis de produção e de quota de mercado e de um país que não está disposto a desligar-se do seu excesso de confiança nessa indústria.

Finalmente, 2016 promete ser o ano da reação contra o domínio alemão da zona euro. Isso não aconteceu durante a crise. Os líderes dos países da periferia da zona euro mantiveram-se de cabeça baixa. Sob a pressão alemã, eles assinaram tratados e legislação, como o Tratado Orçamental e o novo Mecanismo Único de Resolução para os bancos, que claramente não eram do seu interesse a longo prazo. Não tenho a certeza de que Matteo Renzi, o primeiro--ministro italiano, tenha sido particularmente aconselhado a atacar Merkel na sua entrevista ao Financial Times em dezembro.

[citacao:Alguns meses e um milhão de refugiados depois, o descontentamento cresce dentro da União Democrata Cristã, o partido de Merkel, e no país em geral]

Mas ele não está sozinho. Os meios de comunicação italianos estão a tornar-se também mais hostis à posição dominante da Alemanha na UE. Mesmo que 2016 não veja outra crise da zona euro, este poderá ser facilmente um ano de alienação mútua, o que é mais perigoso a longo prazo.

Embora a maioria das ameaças pareçam ser externas, elas são causadas por opções políticas internas. A Alemanha não tem de confiar num único setor industrial a um grau tão extremo. E nenhum país se vê com um excedente orçamental de 8% por acaso. Nem a sra. Merkel precisava de abrir mais uma fronteira que já estava aberta fazendo uma declaração pública daquelas. Ela fez uma opção.

A chanceler está no cargo há 10 anos, por isso o seu futuro é um tema legítimo de especulação e assim permanecerá. Mas não deverá ser essa a principal preocupação da Alemanha por enquanto. Tem coisas mais prementes com que se preocupar.

Editor do Financial Times

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