Nas finanças modernas, o dinheiro e a dívida foram ficando cada vez mais misturados, o que constitui um risco. De vez em quando, ao longo das últimas décadas, o mundo da banca central fica virado ao contrário. Nos últimos cem anos, tivemos sistemas em que os bancos centrais estabeleciam uma taxa fixa de conversão para o ouro, a quantidade de dinheiro em circulação ou, mais recentemente, uma taxa de inflação futura desejada. Uma combinação de profundas mudanças nos mercados monetários e crises financeiras está agora a conspirar para outra grande mudança..Este debate está por enquanto confinado a um pequeno número de especialistas nos bancos centrais e de académicos. É melhor abordá-lo no espírito do grande físico Richard Feynman, que afirmou que preferia perguntas que não podem ser respondidas a respostas que não podem ser questionadas. Grande parte da ortodoxia económica que envolve o mundo da banca central é infelizmente do tipo que evita perguntas. E o que torna este debate tão perturbador para alguns é que não temos respostas simples..Uma das questões é se, e como, a mudança do papel da moeda e das finanças nas nossas economias modernas poderá desestabilizá-las. Os economistas Daniela Gabor e Jakob Vestergaard fizeram trabalhos sobre "dinheiro sombra", um conceito intimamente relacionado com o sistema bancário paralelo ou "banca sombra". Tradicionalmente, costumava haver uma linha divisória clara entre dinheiro e dívida. A dívida é um título negociável. O seu preço muda. O emissor pode entrar em incumprimento. O dinheiro não é negociável. O seu valor pode ser desgastado pela inflação, mas o dinheiro não entra formalmente em incumprimento..No mundo das finanças modernas, o dinheiro e a dívida foram ficando cada vez mais misturados, o que constitui um risco. Um instrumento financeiro onde isto se passa é nos acordos de recompra, ou repos. Pensemos num repo como um empréstimo de uma instituição financeira a outra, contra as garantias negociáveis, principalmente títulos da dívida pública. Estes repos têm todas as características do dinheiro, mas com uma diferença. A dívida, que serve como garantia, torna-se parte integrante do pacote. Dívida e dinheiro deixam de estar separados..A mistura de dinheiro e dívida tem consequências importantes. Um efeito colateral particularmente perigoso é um círculo vicioso de avaliação. Quanto mais acordos de recompra as instituições financeiras negociam, mais títulos elas exigem como garantia. Isso aumenta o preço desses títulos e reduz os seus rendimentos. Isto, por sua vez, torna esses instrumentos financeiros ainda mais atrativos para os mercados monetários..Este tipo de dinheiro depende crucialmente da emissão pelo governo de títulos suficientes para alimentar a besta. Não é difícil perceber como este jogo de bola de neve pode chegar a um fim violento. E levanta questões fundamentais sobre a separação entre bancos centrais e governos, o banco central não é claramente a única, ou mesmo a principal, fonte de dinheiro na economia..A predominância desses instrumentos também reduz a capacidade do banco central de assumir o controlo numa crise. Na zona euro, por exemplo, se todos os governos seguissem o exemplo alemão, adotando excedentes orçamentais estruturais, o resultado seria uma escassez dramática de garantias, o que poderia facilmente desencadear a próxima crise financeira. O mesmo poderia acontecer com um súbito aumento das taxas de juro pelo Banco Central Europeu. Isso não está prestes a acontecer, mas pode tornar-se necessário se, por acaso, a inflação subisse mais rapidamente do que o esperado..Esta é a surpreendente conclusão da pesquisa: "A economia política do dinheiro sombra é pura e simplesmente radical. O dinheiro sombra corrompe o arranjo institucional da Grande Moderação que exalta a preservação dos preços (e do crescimento) pelos bancos centrais independentes e exige suspeitosamente governos orçamentalmente prudentes conduzidos por ideias neoclássicas de crescimento." E continua: "A coordenação entre o Tesouro e o banco central torna-se essencial.".Isto significa o fim da independência do banco central e o fim da estabilidade orçamental à antiga. Todo o sistema teria de ser abatido, incluindo a meta da inflação, que se tornou obrigatória na década de 1990 e está profundamente enraizada na teoria económica moderna. Por um tempo pareceu funcionar, mas isso pode ter sido apenas uma ilusão de ótica. Antes da crise, era quase impossível para os bancos centrais falharem as suas metas. Desde então, tornou-se impossível atingi-las. Isto sugere que os bancos centrais exercem menos controlo do que pensam..Há um ponto sobre o qual concordo com a crítica conservadora das políticas monetárias modernas, tal como é expressa por Claudio Borio, economista-chefe do Banco de Pagamentos Internacionais. Ele alertou recentemente que os bancos centrais podem ter de vir a combater a próxima crise financeira muito antes de atingirem as suas metas de inflação. Este é outro potencial círculo vicioso, feito de instabilidade financeira permanente em conjunto com uma persistente inflação abaixo da meta..Nada nesta análise sugere que uma crise esteja para breve. Mas ou o mundo moderno dos mercados monetários transacionais produzirá uma crise ou forçar-nos-á a descartar a nossa ortodoxia política, ou então, acontecerão as duas coisas em sucessão.