Quando Margaret Thatcher assumiu o poder no Reino Unido em 1979, uma das suas primeiras decisões como primeira-ministra foi cancelar o controlo de capitais. Era o início de uma nova era e não apenas para o Reino Unido. A livre circulação de capitais tornou-se desde então um dos axiomas do capitalismo global moderno. É também uma das "quatro liberdades" do mercado único europeu (juntamente com a circulação sem restrições de pessoas, bens e serviços)..Podemos agora perguntar se a remoção do instrumento político do controlo de capitais pode ter contribuído para uma sucessão de crises financeiras. Para responder a isso, é esclarecedor revisitar um debate de há três décadas, quando muitos na Europa depositaram as suas esperanças numa combinação de livre comércio, livre circulação de capitais, uma taxa de câmbio fixa e uma política monetária independente - quatro políticas a que o falecido economista italiano, Tommaso Padoa-Schioppa, chamou "quarteto incompatível"..O que ele quis dizer foi que a combinação é logicamente impossível. Se o Reino Unido, por exemplo, fixasse a sua taxa de câmbio ao marco alemão, e se os bens e os capitais pudessem ser movimentados livremente através das fronteiras, o Banco de Inglaterra teria de seguir as políticas do Bundesbank..No início da década de 1990, o Reino Unido pôs isso à prova, aderindo ao mercado único europeu e atrelando a sua moeda à da Alemanha. A coisa durou pouco tempo; após menos de dois anos no mecanismo de taxas de câmbio, a libra esterlina voltou para uma taxa de câmbio flutuante. Outros países da Europa tomaram um rumo diferente, sacrificando a independência monetária e criando uma moeda comum. Ambas as opções eram internamente consistentes. O que mudou desde então foi a importância crescente dos financiamentos transfronteiriços. Muitos mercados emergentes não têm uma infraestrutura financeira própria suficientemente forte, pelo que as empresas e as pessoas singulares obtêm empréstimos de estrangeiros denominados em euros ou em dólares. A América Latina é dependente dos financiamentos dos Estados Unidos, assim como a Hungria conta com os bancos austríacos. Com o fim do quantitative easing (flexibilização quantitativa) nos EUA e a subida das taxas de juro, o dinheiro está a fugir dos mercados emergentes que funcionam em dólares..Teoricamente, cabe ao banco central acabar com o caos subsequente, o que a teoria económica padrão sugere que aquele deve ser capaz de fazer, desde que siga uma meta de inflação interna. Mas se grande parte da economia for financiada por dinheiro estrangeiro, a sua margem de manobra é limitada - como explicou a economista francesa Hélène Rey..Em tempos bons, diz a professora Rey, o crédito flui para os mercados emergentes onde alimenta as bolhas de preços dos ativos locais. Quando, anos mais tarde, a liquidez seca e o dinheiro "quente" regressa a refúgios seguros na América do Norte e na Europa, o país é deixado no caos. É muito pouco o que o banco central pode fazer para controlar as entradas e saídas de dinheiro estrangeiro..A menos que se aceite a instabilidade financeira como inevitável, então é provável que em pouco tempo se pense na imposição do controlo de capitais de um tipo particularmente difícil - aquele que envolve dizer aos investidores estrangeiros que não se quer o dinheiro deles. O objetivo é evitar que o dinheiro "quente" entre nos tempos bons e impedir que fuja nos maus momentos..Este ainda não é um tema consensual entre os decisores políticos. Os banqueiros centrais têm vindo a tentar vender um conceito conhecido como a supervisão macroprudencial, uma versão suave do controlo de capitais. A ideia é ajustar os incentivos: quando uma bolha imobiliária começa a crescer, o banco central impõe um limite máximo para os empréstimos, por exemplo, nos valores das garantias. Ele pode também pedir ao seu governo para aumentar o imposto de selo ou outros impostos sobre as transações. A Espanha tentou essas medidas durante os anos pré-crise. Isso não impediu o crescimento de uma das maiores bolhas imobiliárias da história..Medidas mais drásticas, como sair do euro ou a imposição do controlo de capitais, poderia ter evitado a calamidade. A Espanha não tomou nenhuma das duas mas, dentro de pouco tempo, alguém o fará certamente. A livre circulação de capitais não pode certamente ser defendida como uma questão de princípio, quando os custos económicos são tão devastadores. O controlo de capitais era comum no nosso passado pré-Thatcher. É muito possível que regresse.