Existe agora a possibilidade real de o sistema europeu de controlo das fronteiras e imigração colapsar dentro de dez dias, aproximadamente. A 7 de março, os líderes da UE participarão numa cimeira em Bruxelas com Ahmet Davutoglu, o primeiro-ministro turco..A ideia é convencer Ancara a fazer o que a Grécia não conseguiu fazer: proteger as fronteiras sul e oriental da UE e interromper o fluxo de imigrantes. Estão em marcha muitas manobras diplomáticas de bastidores entre a Alemanha e a Turquia. Contudo, o ambiente em Berlim não é bom..As medidas tomadas pela Áustria, a Hungria e outros países para proteger as suas fronteiras nacionais fecharam a rota dos Balcãs Ocidentais ao longo da qual os migrantes faziam o seu caminho para a Alemanha..Os refugiados encontram-se agora presos na Grécia. Alguns poderão partir para Itália de barco. Quando aqueles que sobreviverem à viagem lá chegarem, será de esperar que a Eslovénia, a Suíça e a França fechem as suas fronteiras. Nesse ponto, temos de deixar de considerar que o Conselho Europeu de chefes de governo é um órgão político em funcionamento..A crise dos refugiados que continua fora de controlo poderá ditar o voto no referendo britânico. Não há hipótese de a UE ser capaz de lidar com duas crises simultâneas de uma tal dimensão. O brexit, numa altura destas, tem o potencial para destruir a UE..Não estou à espera de um cenário tão apocalíptico, mas ele também não é implausível. A UE está prestes a enfrentar um dos momentos mais difíceis da sua história. Os Estados membros perderam a vontade de encontrar soluções conjuntas para os problemas que eles poderiam resolver a nível da UE, mas não sozinhos. A população europeia, de mais de 500 milhões, pode facilmente absorver um milhão de refugiados por ano. Nenhum Estado membro pode fazer isso sozinho, nem mesmo a Alemanha..A tendência para as soluções nacionais é particularmente acentuada na Europa Central e Oriental. A Áustria convocou uma conferência dos Balcãs Ocidentais na semana passada em apoio das suas políticas para restringir o número de refugiados. Viktor Orban, primeiro-ministro da Hungria, está a preparar um referendo para se antecipar a um acordo de partilha de quotas de refugiados apresentado por Bruxelas e Berlim. Os húngaros irão certamente apoiá-lo..A Sra. Merkel deve assumir grande parte da culpa. A sua política de portas abertas era antieuropeia na medida em que ela a impôs unilateralmente ao seu próprio país e ao resto da Europa. Ela consultou apenas o chanceler austríaco Werner Faymann..A UE está em risco de sofrer quatro fraturas. Não estou à espera de que todas elas aconteçam, mas ficaria surpreendido se nenhuma delas se verificasse. A primeira é uma separação norte-sul devido aos refugiados. O chamado espaço Schengen, onde se pode viajar sem passaporte, ao qual pertencem 26 países europeus, poderá ser suspenso indefinidamente ou transformar-se numa versão em miniatura compreendendo apenas a Alemanha, a França e os países do Benelux. A Itália não faria parte dela..Uma segunda fissura norte-sul é o euro. Nada mudou aqui. Os ecos da crise na zona euro persistem e a posição grega é tão insustentável hoje como era no verão passado..A terceira é uma divisão este-oeste. Será que as sociedades abertas da Europa Ocidental querem ficar ligadas numa união cada vez mais estreita com pessoas do género do Sr. Orban ou dos outros nacionalistas da Europa Central e Oriental?.Por fim temos o brexit. Não há nenhuma maneira de saber o resultado do referendo britânico. As sondagens são tão inúteis como foram durante as eleições gerais do ano passado..Mais importante ainda, por enquanto não começou o debate a sério. Os acontecimentos irão intrometer-se; novos factos ou mentiras vão surgir. Uma votação britânica no sentido de abandonar a UE pode desencadear referendos na Suécia ou na Dinamarca, adicionando mais incerteza..A crise dos refugiados fora de controlo é, em última análise, mais perigosa para o futuro da UE do que a fragmentação do euro. O que torna a crise de refugiados politicamente mais preocupante é que, desta vez, a França e a Alemanha estão em lados opostos da discussão..Na Conferência de Segurança de Munique, no início deste mês, não fiquei surpreendido ao ouvir Manuel Valls, o primeiro-ministro francês, a reafirmar a sua oposição às quotas de refugiados adicionais, mas fiquei surpreendido ao ouvi-lo criticar diretamente a Sra. Merkel. Não foi a França que convidou os refugiados, disse ele..O impasse político sobre os migrantes diz-nos que a abertura das fronteiras da UE é incoerente com a soberania nacional sobre a imigração. Os Estados membros terão de escolher. Eles vão escolher a soberania..Depois de quase 60 anos de integração europeia, estamos a entrar na era da desintegração. Ela não vai necessariamente levar a uma rutura formal da UE - isso é extremamente improvável - mas vai tornar a UE menos ativa..A certeza é que a crise dos refugiados acrescenta mais um nível de complexidade ao debate britânico. Está a ser solicitado ao povo britânico que decida se quer ou não permanecer num tipo de União Europeia que não está claro qual é. O perigo espreita.