Proponho-me completar hoje a análise iniciada no artigo anterior. A intermediação dos recursos financeiros dos países com excesso de poupança foi, na Europa, protagonizada principalmente pelos bancos. E, mais uma vez, acabou-se numa narrativa distorcida e desfavorável aos bancos dos países externamente deficitários..Simplificando muito uma história complexa, os bancos dos países excedentários forneceram crédito abundante e barato aos bancos dos deficitários, e estes, correspondentemente, ofereceram crédito barato e abundante a quem o quisesse, incentivando a embriaguez referida no artigo anterior. Quando a paragem súbita destes fluxos ocorreu, os bancos dos deficitários ficaram "entalados" entre os seus devedores, incapazes de pagar as dívidas, e os seus credores (bancos dos excedentários) a quererem o seu dinheiro de volta..Honrando os seus débitos, e antes de se perceber a natureza do problema, os bancos dos países deficitários libertaram os homólogos dos países excedentários da responsabilidade inerente à sua própria imprudência no processo de desestabilização financeira. E ficaram com as dívidas insustentáveis dos mutuários finais dos seus países pendurados nos seus balanços e a consumir o seu capital. Ambos os lados - bancos dos países credores e dos devedores - foram imprudentes, mas apenas os últimos ficaram com o ónus, financeiro e reputacional..Os bancos dos países excedentários ficaram pouco expostos aos utilizadores finais do crédito (excepto no caso das dívidas soberanas e das grandes empresas, de que foram credores directos), porque os dos deficitários interpuseram entre ambos a almofada do seu próprio capital (como se fora um seguro do dos outros). Daí que tenham ficado numa situação mais vulnerável. Além disso, e como consequência das fortes recessões induzidas pelos ajustamentos, a posição dos devedores finais nos países externamente deficitários tornou-se mais complicada, à custa dos bancos locais..O súbito recolhimento dos fluxos de crédito dos bancos dos excedentários teria deixado os países devedores (e os seus bancos) incapazes de lhes pagar os créditos que entretanto se iam vencendo, não fora a interposição do BCE (através dos bancos centrais nacionais) e dos governos desses países (através dos resgates) a assegurar os meios para esses pagamentos e a permitir que os credores financeiros tirassem o corpo do problema que ajudaram a criar..O resgate dos países devedores e dos seus bancos poupou-os a um default, com todas as consequências associadas, directas e indirectas. Mas também resgatou os credores, poupando-os às consequências desses potenciais defaults (que mais não seriam do que o preço da sua própria imprudência)..O que teria acontecido se os resgates e a interposição do BCE não tivessem ocorrido? Muito provavelmente, a falência dos Estados devedores e dos seus bancos; mas também de muitos bancos dos credores, além de uma profunda recessão geral e um generalizado caos financeiro, económico e político, que a todos penalizaria..Face a este quadro aterrador, aquelas acções foram, no geral e deixando importantes pormenores de lado, as mais adequadas para lidar com a situação. O ponto relevante, todavia, é que com elas foi prevenido um caos geral, para o qual todos - credores e devedores - teriam contribuído; mas assentaram numa narrativa unilateral e enviesada de responsabilidades, fazendo cair todo o ónus, financeiro e reputacional, sobre os países devedores e os seus bancos, e poupando injustamente os credores..A contranarrativa aqui apresentada é demasiado simplista? Certamente que o é. E muito incompleta também. Mas não o é mais do que a narrativa moralista - credores bons e devedores maus - que se institucionalizou e que tem fundado a abordagem do problema e minado a sua boa resolução. A crise vivida na zona euro tem natureza sistémica - todos têm responsabilidades - e por isso as soluções deveriam ser sistémicas e envolver a partilha de custos entre os dois lados. E é profundamente injusta a singularização dos bancos dos deficitários na narrativa da irresponsabilidade e má gestão. (Já alguém procurou saber porque é que o relatório anual da estabilidade financeira alemã, referente a 2008, nunca foi publicado pelo Bundesbank?)..Esta narrativa deveria reequilibrar a abordagem da crise, recentrá-la na sua natureza sistémica, tornar o ajustamento mais eficaz e partilhar mais justamente os seus custos. Mas não isenta os deficitários das suas próprias responsabilidades, não pode esconder a sua perda de competitividade no processo nem os dispensa do necessário esforço reformador para a recuperar e tornar as suas economias mais flexíveis. Sem isso, não haverá solução sistémica ou partilha de custos que lhes valha..Em termos mais gerais, tem de haver um reequilíbrio mundial e europeu: os deficitários têm de poupar mais gastando menos; e os excedentários têm de gastar mais poupando menos. Mas os excedentários - que desencadearam os mecanismos que levaram à crise! - não podem eximir-se às suas responsabilidades, morais e financeiras. Sem isso, o germe da crise não será eliminado e voltará a atacar.