A improvável geringonça

A coligação política crismada de geringonça tem protagonizado uma interessante experiência, pouco analisada. Tida como improvável, ultrapassou com sucesso uma série de subsequentes improbabilidades, a que os seus opositores se agarraram, na esperança de que a fizessem soçobrar e afundar em desastre: aprovação e posterior execução do Orçamento de 2016; aprovação do Orçamento de 2017; negociações com Bruxelas; apreciação das agências de rating; despoletamento de uma crise bancária herdada da gestão anterior; e outras menores.

Superadas as improbabilidades e falhados os agoirentos prognósticos, a solução política não só se consolidou, enquanto realidade política incontornável, como destrambelhou as convicções e os alinhamentos em que tem assentado o funcionamento do sistema político, alterando-o e redefinindo os contornos do seu futuro funcionamento. E quem não tiver percebido isto está politicamente perdido.

Uma das importantes e positivas consequências desse realinhamento foi o alargamento, de facto, do consenso político favorável à estabilidade financeira, com a conversão da extrema-esquerda ao incontornável desiderato. Se dúvidas houver, veja--se a distância entre a vociferante exigência de reestruturação da dívida pública feita até há pouco tempo e as desdentadas propostas recentemente trazidas a público. Ou veja-se o empenhamento na elaboração e execução de Orçamentos "aceitáveis em Bruxelas".

Por outro lado, a solução política alternativa perdeu-se, e perdeu demasiado tempo, primeiro, na recusa da legitimidade de um caminho político constitucionalmente válido e conforme às práticas democráticas dos regimes dominantemente parlamentares, como é o nosso; e depois, a prognosticar um desastre falhado. Com isso, acabou por não conseguir construir um programa de futuro, que, valorizando os duros feitos que, tão árdua quanto incompreendidamente, tinha conseguido no governo, oferecesse um caminho diferente de resposta aos anseios sociais, e fomentar uma mobilizadora alternativa. E acabou, paradoxalmente, a funcionar como certificador do sucesso da solução que contesta.

A que se deve então o sucesso da "geringonça" que, além de se popularizar interna e externamente, conseguiu inverter o caminho de pasokização a que o PS parecia condenado, reabrindo-lhe a perspectiva de uma maioria absoluta, a contra-corrente com as tendências do resto da Europa; transformar dois partidos "marginais" do regime, e contestatários da integração europeia, em diligentes cumpridores das exigências dessa mesma integração, empenhados salvadores de bancos, e devotos do rigor orçamental; e colocar a oposição num caminho também contra a corrente das tendências europeias?

Deve-se, recorrendo à equação do sucesso enunciada por Daniel Kahneman, a uma mistura de talento e sorte, a que se deve acrescentar cumplicidade mediática.

Talento de quem a promoveu, para arriscar uma solução nunca tentada, percebendo que a forma como a realidade domara duramente os ímpetos revolucionários do Syriza na Grécia levaria os congéneres locais a moldar-se às exigências do patrocínio europeu, a troco da sua institucionalização no clero e na liturgia do poder; para perceber que, em economia, tudo o que desce acaba por subir, e que, feito o ajustamento, a viragem da onda não deixaria de trazer aproveitáveis dividendos económicos; para conseguir navegar pelas improbabilidades com mais pragmatismo do que ideologia; e para deixar aos parceiros o conforto da retórica, a troco das cedências da substância.

Sorte, por a conjuntura económica ter melhorado mais rapidamente do que muitos esperavam; pelo inesperado boom turístico; por a conjuntura política europeia (sucessão de eleições problemáticas) ter amolecido a obstinação dos falcões das instâncias decisórias europeias; por a oposição não conseguir descolar os olhos do retrovisor; pela maior cumplicidade presidencial de que algum governo dispôs; e por alguns "acidentes" (também reveladores do talento dos protagonistas) muito favoráveis à auto-estima do País (campeonato europeu de futebol, festival da Eurovisão, visita do Papa, etc.).

E cumplicidade mediática que se materializa muito mais no que omite do que no que declara. O efeito político da comunicação social revela-se sobretudo no eco com que reproduz e amplifica as notícias ou opiniões convenientes, multiplicando-lhes o impacto social, e na acolchoada indiferença com que ignora ou amortece as inconvenientes, abafando-lhes o impacto. É neste controlo da repercussão, muito mais do que qualquer eventual censura, que se orienta o efeito político das notícias e das opiniões. E é neste controlo que a cumplicidade mediática se tem manifestado muito eficazmente.

Qual a durabilidade da solução? A política é feita de ciclos e estes são influenciados pela economia, pela conjuntura internacional e pelo natural desgaste do que se torna "familiar" (que favorece, em contraponto, o apelo pela novidade). A onda, porém, continua-lhe favorável e assim deverá continuar nos tempos mais próximos, pelo que não será difícil prognosticar que o presente ciclo não deverá terminar com esta legislatura. Mas o mundo tornou-se muito incerto...

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