O recente Livro Branco sobre o futuro da Europa, lançado pela Comissão Europeia (CE), confirma a deriva e a desorientação europeias. O documento seria interessante se tivesse sido editado por um instituto de pesquisa, mas sendo produzido pela Comissão Europeia é apenas revelador do estado deplorável em que nos encontramos. A CE foi engolida por quem manda no Conselho Europeu, oscilando entre fazer palpites inconsequentes e servir de duro instrumento ao serviço da imposição da austeridade consagrada no tratado orçamental. O inimigo da Europa habita no seu próprio coração. Reside na total paralisia e autismo político em que o projeto europeu se afundou nos últimos sete anos. Muito espetáculo. Muitas decisões. Mas sempre em regime de remendo e bricolage. Sempre seguindo os caminhos mais caros e tortuosos. Indo atrás dos acontecimentos, em vez de os antecipar para melhor os condicionar. Os populistas são a consequência. A causa está na mediocridade e na indiferença das lideranças para com o sofrimento e a insatisfação dos eleitores. A escala da crise é europeia em todas as suas dimensões, mas a ótica dos decisores é mesquinhamente nacional. Na verdade, a mensagem dos populistas parece clarificar o que está apenas latente no discurso do diretório que tem governado esta Europa: se a Europa não existe ou não é competente como sujeito político, então ela tornou-se um problema. A política tem horror ao vazio. Se o plano europeu é inviável, quem se pode queixar de que o falacioso lema "todo o poder às nações" comece a fazer sentido para eleitores a viver em regime de constante sobressalto? No atual ciclo eleitoral - que se prolongará de março (Holanda) até setembro (Alemanha), passando por maio (França) - há dois riscos fundamentais. O mais grave seria a vitória de Marine Le Pen, que implicaria o desmantelamento desordenado deste edifício doente que é a UE, com consequências negativas para toda a Europa e em particular para Portugal. Mas o segundo perigo é também assustador. A reconfirmação de Merkel mais quatro anos à frente do governo de Berlim significaria que esta UE disfuncional se arrastaria penosamente por mais alguns anos. Com Merkel e Schäuble tudo permaneceria numa agonia que aumentaria a clivagem e reacenderia mais ainda os velhos demónios europeus. Por isso mesmo, porque os sinais de esperança são raros, importa olhar para eles com atenção. Desde o final de janeiro até agora, Martin Schulz, o candidato do SPD a chanceler (por um acordo raro com Sigmar Gabriel, que colocou o interesse do partido acima de considerações pessoais) tem subido nas sondagens a ponto de já ter ultrapassado o partido de Merkel. Se esta tendência se mantiver, o resultado das eleições de setembro poderá conduzir a uma inesperada coligação entre SPD, Verdes e, eventualmente, o partido da Esquerda (Die Linke). Schulz e Gabriel publicaram em junho passado, logo após o brexit, um documento com dez propostas para refundar o projeto europeu, em que vários tabus germânicos (incluindo do próprio SPD) foram quebrados: apontando-se a necessidade de reestruturar as dívidas excessivas, de políticas comuns e coordenadas de desenvolvimento sustentável, do reforço da dimensão social e da democracia europeias. O precedente não permite entusiasmos fáceis. Mas uma coisa é certa. Para o projeto europeu sobreviver teremos de poder dizer um dia sobre os alemães o mesmo que Churchill dizia sobre os norte-americanos: "Podemos contar com eles para fazerem o que está certo, depois de terem esgotado todas as outras possibilidades"...