Stefan Zweig ou a Europa como pátria cruel

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A realizadora alemã Maria Schrader oferece-nos um filme sobre os últimos anos do escritor austríaco Stefan Zweig (1881-1942). Um autor que, ao lado de Thomas Mann, foi o grande vulto universal da literatura de língua germânica. O filme, povoado também por atores portugueses, é de uma enorme beleza estética e de um grande rigor histórico, literário e psicológico. A ação decorre entre 1936 e 1942, data do suicídio do escritor, num Brasil que Zweig enalteceu como terra hospitaleira para refugiados. O título original alemão do filme poderia traduzir-se por "Antes da Aurora", expressão retirada da nota de despedida deixada por Zweig no seu leito de morte. Mas a tradução portuguesa, Adeus, Europa, transporta consigo uma interpretação sábia da essência do filme. Zweig morreu depois de anos de luta corajosa - sem nunca abandonar a sua poderosa e sedutora escrita - contra o cansaço e a depressão causados por uma Europa enlouquecida por uma política de pulsão de morte. Com uma fina sensibilidade antecipativa, Zweig percebeu antes de muitos a estrada de barbárie representada pelo ascenso do nazismo, que em 1938 engoliu também a sua Áustria. Contudo, o modo como Zweig sentia e vivia a cultura europeia é hoje impossível de replicar. Ele pertenceu à última geração da intelectualidade judaica europeia. Um escol do espírito, que ajudou a Europa anterior a 1933 a manter-se no cimo universal de todos os campos da criação artística e científica. A Europa de hoje oferece uma pálida imagem em comparação com esses tempos. Tendemos a esquecer que Hitler conseguiu cumprir uma parte significativa do seu virulento programa de Solução Final. Hoje, a Europa, tal como o Portugal do século XVI depois da expulsão decretada por D. Manuel, perdeu o fermento espiritual e cosmopolita das suas comunidades judaicas. É medonho reconhecer que o extermínio dos judeus, não só das elites que se deixaram ficar mas também dos humildes que não podiam pagar o exílio, foi feito contra mulheres e homens que se tinham integrado completamente nos Estados de que eram cidadãos. O seu crime residia na sua inteligência, no seu sucesso, na sua capacidade de ver a Europa numa perspetiva amplamente europeia e não patologicamente nacionalista.

A febre de autodestruição que varre de novo a Europa não é menos inquietante, porque são hoje mais raras as vozes lúcidas capazes de serem escutadas. Um Jürgen Habermas, o falecido Ulrich Beck... Pouco mais que se consiga ouvir fora dos contextos estritamente nacionais. Não existe ainda nenhum movimento transversal pan-europeu, apesar do erguer de novos muros, do escândalo de uma austeridade que avilta os direitos humanos e da transformação da Grécia numa espécie de país-hospitalar, mantido a soro para não perturbar a longa procrastinação dos poderes instalados, que deixam o nosso futuro comum entregue à voragem dos extremismos populistas. Do mesmo modo que a Europa de Zweig começou a morrer não com Hitler em 1933 mas em 1914, quando a juventude europeia foi devorada na horrível pira da guerra das trincheiras, também a nossa Europa começou a agonizar não com o crash financeiro de 2008 mas em 1992, quando em vez de um destino democrático e federal nos deixámos arrastar para o redil de uma união monetária incompetente que nos está a sangrar o corpo e a envenenar a alma. A Europa de Zweig terminou com a explosão da II Guerra Mundial. A nossa, por este caminho, acabará com uma implosão. Daremos eventualmente por isso se ou quando o seu teto nos cair em cima.

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