Os fósforos de Schäuble

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O ministro Wolfgang Schäuble continua a quebrar o mais elementar princípio de respeito pela soberania nacional que deve nortear as relações entre Estados. Esse princípio ainda se torna mais relevante quando se trata de países, como é o caso de Portugal e da Alemanha, embarcados na UE e na zona euro, aliados na NATO, partilhando interesses vitais comuns que exigiriam solidariedade e não arrogância. Neste ano, é a terceira vez que as suas palavras sobre Portugal não são dignas de um país com as responsabilidades e a grandeza efetiva da Alemanha. Schäuble continua a comportar-se como se fosse um comentador de política europeia de um jornal provincial da Saxónia ou da Baviera. É uma pena que ele não tenha percebido o significado da afirmação do seu compatriota Max Weber, em 1919, quando os alemães penavam na Conferência de Versalhes: "Uma Nação pode perdoar o dano causado aos seus interesses, mas não o dano causado à sua honra." Apesar de tudo, há qualquer coisa de caricatural em Schäuble, que torna hoje as suas ofensas patéticas. Apesar do currículo da Alemanha - como Estado desde 1871 - na cena internacional e europeia ser semelhante ao registo meteorológico da passagem de um furacão de alta intensidade, a verdade é que Berlim é hoje um enorme ativo europeu, que contrasta com a menoridade do seu ministro das Finanças. O que torna ridículo, o Schäuble de 2016, é que, ao atacar Portugal, ele tenta repetir o que fazia em 2011: cada vez que censurava um país, os mercados financeiros respondiam penalizando as respetivas obrigações. Ele habitou-se a que as suas palavras fossem como diabólicos fósforos mágicos ateando a palha dos mercados. Hoje, pelo menos enquanto durar a política do BCE, os fósforos de Schäuble já não assustam os mercados. Molharam-se na saliva do seu ressentimento.

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