O inferno dos mentirosos convictos

Publicado a
Atualizado a

Transformada em palco de um reality show global, a Sala Oval conferiu a Trump uma desmesura astronómica. No meio de tanto "som e fúria" corremos o risco de tropeçar nos detalhes. O que me parece essencial em Trump é perceber o seu valor de verdade. Pode parecer contraditório falar de verdade relativamente a quem constantemente a despreza, atropela e manipula. E não estou a falar de ideologia. O alvo de Trump são sempre os factos mais elementares (desde o número de votos no Colégio Eleitoral até aos atentados imaginários na Suécia). A verdade de Trump reside no significado da sua intensidade caricatural. Nele tudo transborda e é excessivo. Um léxico pobre, mas matraqueado como um hino bélico. Uma vontade ao serviço de um narcisismo insaciável. Uma energia que não parece ter rival e esgota tudo e todos à sua volta. Contudo, as caricaturas servem para fazer ver, sobretudo aos distraídos, o que é essencial. Trump é um esquisso a cores berrantes da tragédia crescente em que se transformou a política contemporânea nos últimos 30 anos. Quando a política deixou aos mercados (os mesmos que agora exultam com as guloseimas fiscais que Trump lhes irá oferecer no curto prazo) a condução dos assuntos do mundo. Sem regulação e em roda livre. O mundo seguiu o seu caminho, de complexidade tecnológica crescente a todos os níveis da produção e do consumo, da inovação e da aplicação. A política, pelo contrário, atrofiou-se. Abdicou da sua função arquitetónica, como se o caleidoscópio vertiginoso das diferentes esferas da existência coletiva fosse dotado de uma harmonia preestabelecida e de uma bondade intrínseca. Trump não é uma singularidade, mas o fruto hiperbólico de uma política que se simplificou ao ponto de desistir da verdade objetiva mais elementar. Será que os líderes políticos europeus - que continuam a manter 500 milhões de cidadãos reféns da fábula da "crise das dívidas soberanas" - têm uma relação mais saudável com a verdade factual do que Trump? Ou será que se limitam a ser os sonolentos cultores de uma mentira, enquanto Trump mente com amplificador e talento histriónico?

Perdemos tempo em falar em pós-verdade. Até nisso os clássicos são sempre melhores. Em 1967, no seu genial ensaio Verdade e Política (acessível em português), Hannah Arendt antecipou o que estamos a viver. O nosso mundo transformou a fabricação da mentira numa área de negócio. Quando Estaline riscava Trotsky das fotos da Revolução Russa, estava, grosseiramente, na senda dos "factos alternativos". Na "mentira tradicional", esclarece Arendt, o mentiroso guarda a verdade para si (como ocorre quando se engana um inimigo com uma imagem ampliada do nosso poderio, para o dissuadir de nos atacar), enquanto na "mentira contemporânea" o mentiroso enrola-se na própria mentira, tentando destruir a verdade como dado existencial. Trump é a incarnação perfeita do mentiroso moderno como tipo ideal. Ele acredita que, se tivermos uma vontade suficientemente forte, as convicções daí decorrentes acabarão por se materializar, sem precisar de compreender a densidade das coisas ou a inércia dos processos objetivos. No mundo de Trump, o que impera é um choque de vontades. Não há causas. Há culpados. Alterações climáticas? Estagnação económica? Coisas tão inconvenientes só podem ser o resultado da conspiração de vontades inimigas! Estamos apenas no princípio. Dentro em breve, os "factos" de Trump, se a resistência do real não os travar, poderão começar a doer. De verdade.

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt