No ordenamento constitucional português, um presidente não tem programa - essa é uma exigência que cabe ao executivo - mas deve ter valores e princípios de intervenção. O discurso de tomada de posse de Marcelo Rebelo de Sousa não poderia ser mais claro nesse domínio. O primeiro valor foi o assumir da sua missão presidencial, não no quadro da conjuntura, mas no horizonte da história longa de Portugal. Marcelo revelou um patriotismo feito do conhecimento da memória, mas também da responsabilidade imensa de ser o chefe de Estado europeu do país mais antigo e com fronteiras continentais mais estáveis. Lembrou Ourique, Zamora, Mouzinho, Torga. Uma nação é sempre uma mitologia construída e consentida. Marcelo quer trabalhar para ficar na galeria dos heróis portugueses. Quem o quiser aprisionar numa lógica de guerrilha partidária mesquinha subestima, duplamente, a sua inteligência e a sua ambição. O segundo valor é o da visão inclusiva de Portugal. É difícil encontrar algo ou alguém que não tenha sido mencionado por Marcelo. Das Forças Armadas às mulheres e aos jovens. O triângulo estratégico nacional, que tem nos Açores e na Madeira vértices fundamentais, esteve presente. O terceiro valor é o da conceção cosmopolita do futuro do país. Os con- vidados internacionais funcionaram, simbolicamente, como a representação da relação íntima de Portugal com a Espanha, nessa "pequena Europa" que é a Ibéria. A CPLP, através do presidente de Moçambique, representa a janela oceânica que sempre garantiu a sobrevivência nacional. Finalmente, Juncker, no lugar inescapável de uma Europa à qual pertencemos pela geografia física e mental, mas que é sempre um território onde as luzes e as sombras se combinam. Por vezes, perigosamente, como ocorre hoje. O quarto valor é o de confirmar que o poder político não se justifica só pelos resultados do seu uso, mas sobretudo pela legitimidade como limite desse uso. Marcelo sublinhou a obediência à Constituição como lei matricial. E isso implica não baixar os olhos perante o crescimento da pobreza - ou as falhas do projeto europeu a que esse crescimento está associado -, até porque a Lei Fundamental consagra o ideal regulador do "Estado social de direito". Enquanto no Centro e Leste da UE o cesarismo devora a democracia, em Portugal a crise despertou a centralidade do Parlamento e elegeu um Presidente que se assume como seu parceiro constitucional. Continuamos na tempestade. Mas sabemos quem vai ao leme. Falta reencontrar um rumo.