Dois minutos e meio para a meia-noite

Publicado a
Atualizado a

Desde 1947 que os responsáveis do Bulletin of Atomic Scientists, sediado na Universidade de Chicago mantêm em funcionamento um "Relógio do Juízo Final". O relógio simboliza e quantifica o risco de guerra nuclear global. Quando a contagem começou o relógio apontava 7 minutos para a meia-noite (a fatídica hora do holocausto atómico). Até hoje o período de maior perigo coincidiu com 1953, o ano da morte de Estaline, e de um incremento nos ensaios de armas nucleares por Washington e Moscovo. A fase mais distendida leva-nos até 1991, ano em que a dissolução da URSS marca o termo da guerra-fria. Contudo, em Janeiro deste ano, o relógio indicava dois minutos e meio para a meia-noite. O pior período desde 1953, mesmo antes do agravamento da situação na península coreana.

Há muitos anos que na Coreia do Norte a cruel dinastia Kim desenvolveu armamento nuclear, numa versão asiática do conceito francês da "dissuasão do fraco ao forte": as armas não se destinariam a um primeiro ataque ofensivo, mas antes a garantir que os EUA e seus aliados não colocam em causa, mesmo com armas convencionais, o regime de Pyongyang. Depois de ter submetido o seu povo a uma opressão sem paralelo no mundo contemporâneo, onde a fome e a repressão são ingredientes comuns - sendo que à última não escapam sequer os altos dirigentes e até os familiares do ditador - Kim Jong Un quer ganhar imunidade perante o poderio dos EUA. A sua obsessão é garantir que não se irá juntar à lista de ditadores varridos pela política de "mudança de regime", que levou Saddam Hussein ao cadafalso mais mediático da história mundial e Gadaffi ao linchamento mais visionado de sempre.

Tudo indica que o regime norte-coreano tem capacidade para lançar ogivas nucleares contra a Coreia do Sul e contra o Japão, estando também em preparação ensaios, longe do sucesso, em torno de um vector intercontinental com capacidade de atingir alvos na costa ocidental dos próprios EUA. A situação é delicada. Por isso recomendaria o contrário daquilo que Trump e Tillerson estão a fazer. A guerra nuclear foi evitada porque as decisões políticas integraram alguns princípios básicos de conduta. Um deles consiste em compreender que as armas atómicas só cumprem a sua função se não forem usadas. Outro princípio aconselha a não encurralar um potencial inimigo numa situação sem saída, tornando o carregar desesperado no botão atómico num mal menor. Herman Kahn, um dos homens que mais escreveu sobre escalada bélica em cenário atómico, identificava 44 etapas antes da guerra total. Como escrevi acima, Kim Jon Un é, simultaneamente, implacável (não hesitará em escudar-se atrás dos seus súbditos) e previsível (o seu objectivo é a segurança pessoal). Trump está a jogar um jogo perigoso, quando mistura ao mesmo tempo a reivindicação correcta de envolvimento da China numa solução diplomática, e quando sugere, numa retórica irresponsável, que o caso de Pyongyang poderá ser equiparado ao uso da força contra uma base aérea síria ou contra túneis do ISIS no Afeganistão. O facto de 150 000 militares chineses se terem deslocado para a fronteira com a Coreia do Norte, pode indicar que Pequim não exclui uma eventual vaga de refugiados, caso o pior aconteça. Qualquer erro de cálculo, como seria uma operação convencional falhada contra Kim Jong Un, poderá levar a uma brutal perda indiscriminada de vidas numa guerra nuclear limitada. Manter as armas nucleares dentro da caixa de Pandora, de onde não saem desde Agosto de 1945, é uma coisa demasiado séria para caber dentro de um tweet.

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt