Alívio na incerteza

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Num passado ainda bem recente, os Estados europeus temiam ser invadidos pelos seus vizinhos. A União Europeia concedeu a todos os seus membros a expectativa de que isso já não seria possível. Contudo, depois de termos entrado na atual deriva da austeridade constitucional, os Estados europeus ameaçam de novo a segurança de todos. Desta vez através da possibilidade de implodirem a união monetária, rompendo unilateralmente com o euro. Foi por isso que, apesar de folgada, a vitória presidencial de Macron limitou-se a ser recebida com alívio geral, dentro e fora de França. Ontem, apenas ficámos a saber que a incerteza vai continuar com a dose de angústia a que estamos habituados. O problema maior de Macron não é interno. A vigente Constituição de 1958, nascida da cabeça de De Gaulle, assenta como uma luva a um candidato que correndo por fora alcança o Eliseu. Ao contrário da tradição constitucional liberal (incluindo a primeira Constituição francesa de 1791), a constituição gaullista inicia o seu caminho pelos poderes do presidente, seguindo-se o governo. O Parlamento (a casa dos partidos, tão detestados pelo general) fica para um longínquo terceiro lugar. É verdade que, bem ao espírito do seu fundador, o presidencialismo da V República é mais retórico do que real. Mas não subestimemos a exuberância de uma vitória arrancada ao torpor de republicanos e socialistas envergonhados. Quem se opuser ao presidente não irá melhorar a sua situação na política francesa. Macron venceu, nesta batalha, o soberanismo alucinado de Le Pen, mas ninguém sabe se será capaz de ajudar a construir, com todos os europeus de boa vontade, o sujeito político, poderoso e esclarecido, que a crise europeia desesperadamente exige. Ganhou-se tempo, mas a contagem decrescente está longe de ter sido interrompida.

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