Donald Tusk, o presidente do Conselho Europeu, levou para a reunião informal de Bratislava (sem o Reino Unido) uma lista com as principais preocupações dos cidadãos da UE, de acordo com os resultados do Eurobarómetro de julho. Os receios dos inquiridos distribuem-se entre um máximo de 48%, para a imigração, e um mínimo de 9%, para a criminalidade. Entre ambos, as angústias distribuem-se, decrescentemente, pelo terrorismo, situação económica, finanças públicas de alguns Estados membros, e desemprego. O bizarro método de Tusk consistia em encontrar um menor denominador comum que pudesse servir de base para uma agenda europeia capaz de restaurar os laços da confiança perdida, entre o cidadão comum e as instituições europeias. Quem esperasse liderança encontrou um simpático, mas fútil, exercício de mediação. O resultado era mais do que previsível. O roteiro de Bratislava é um atestado do coma induzido em que a União mergulhou. É crescentemente confrangedor o espetáculo de cimeiras onde os 27 chefes do Estado e do governo se reúnem, formando uma pequena e desarticulada multidão. Tem sido vã a espera por uma inspiração divina para encontrar um rumo estratégico para salvar a Europa das forças disruptivas que crescem dentro do corpo das nações. Estas reuniões informais e extraordinárias acentuam duas características tóxicas que agravam os problemas europeus. Em primeiro lugar, confirmam o total esgotamento do atual modelo institucional da UE. Já ninguém espera nenhum rasgo visionário das cimeiras de líderes. Elas tornaram-se em mediáticas reuniões para terapia de grupo de dirigentes aflitos e à deriva. Recordam-nos, inquietantemente, a lição da história política mostrando-nos que quando o poder se transforma num monstro de muitas e desencontradas cabeças, isso significa que o crepúsculo se aproxima. Em segundo lugar, para o cidadão comum, esta agónica impotência revela cada vez mais que a democracia representativa na Europa resiste apenas na escala do país ou da região. Para o eleitor de qualquer dos 27 Estados membros, a escala europeia, com a exceção da eleição para o modesto Parlamento Europeu, exibe, no máximo, a frustrante experiência de uma democracia contemplativa. A UE é hoje um grande galeão encalhado. Na espera incerta de uma maré que o liberte, e de um vento que lhe enfune as velas. Enquanto nada disso acontece, a revolta, com muitas cores e causas, vai grassando entre a marinhagem e os passageiros. A situação tornou-se pior desde 2015, com o eclipse da hegemonia alemã. A "Europa alemã" foi sempre uma entidade insustentável, mas, pelo menos, existia a ilusão de que Berlim poderia ser o ponto de Arquimedes para inverter a decomposição europeia. A preponderância germânica durou entre 2010 e 2014, quando o problema da Europa era, quase exclusivamente, o da crise estrutural da união monetária. Na luta entre manter a austeridade ou avançar para uma autêntica reforma federal, a chanceler Angela Merkel seguiu o seu conhecido estilo que consiste em não permitir que qualquer decisão venha perturbar o curso da realidade...Em 2015, a chanceler decidiu-se pelo voluntarismo na questão dos refugiados, e deu-se muito mal. Hoje, todas as ameaças europeias, incluindo os riscos financeiros globais, transcendem as capacidades alemãs. Merkel recuou para uma segunda linha defensiva, fazendo a Alemanha entrar na longa fase introspetiva em que agora se encontra. Os próximos meses não prometem nada de inteligente ou corajoso. Os poderosos da Europa lutam pela mera sobrevivência eleitoral. Matteo Renzi, sairá de cena se perder o referendo constitucional no final do ano. Em maio de 2017, só um milagre poderá manter François Hollande no Eliseu. E daqui a um ano, será a vez de Merkel ajustar contas com um eleitorado que, no melhor cenário, lhe dará a tarefa de governar, manietada por um Parlamento dividido e fragmentado. O futuro europeu já não pertence à política, mas sim às leis inflexíveis da mecânica. As que estudam a resistência dos materiais.