Crescer com ganas e choque fiscal

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De onde vem realmente o crescimento? Portugal cresceu mais do que a Europa, pela primeira vez em três anos. A economia portuguesa cresceu 1,9%, em termos reais, no quatro trimestre de 2016 face a igual período de 2015, ao passo que a economia da União Europeia avançou 1,8% e a da zona euro 1,7%.

Portugal voltou a crescer acima das médias apuradas no Velho Continente, o que não acontecia há três anos, desde o final de 2013. Os dados são do Eurostat e foram divulgados ontem. Uma das razões é, uma vez mais, o aumento do consumo privado.

Se olharmos para a Europa a 28 países, aí ficamos bem atrás dos recordistas Roménia e Bulgária, com valores de crescimento de 4,8% e 3,4%, respetivamente. Se olharmos para o vizinho do lado, Espanha, ficamos igualmente corados de inveja. Espanha, depois da profunda crise económica que atravessou, com um brutal crash imobiliário e altíssimo desemprego, e após uma dura crise política e que ainda está por resolver, consegue, ainda assim, cortar a meta de 3% de crescimento.

As ganas dos espanhóis veem-se ainda mais nos momentos difíceis. Recordo o 11 de março de 2004, quando, após os atentados terroristas de Atocha na capital madrilena, os espanhóis saíram à rua, debaixo de chuva, gritando "não temos medo". Sim. Não têm medo de enfrentar a crise, de arregaçar as mangas, de trabalhar e de lutar pelo crescimento.

Enquanto em Portugal se lambem ainda as feridas da presença da troika e da imposição de uma inesperada geringonça, aqui ao lodo enterram-se os mortos e cuida-se dos vivos. Resta-nos o consolo de acreditar que os 3% de crescimento de Espanha podem vir a provocar um contágio positivo em Portugal, acelerando a máquina desta débil economia, que continua a ser penalizada pelo rating da república e por um sistema financeiro frágil. Na banca, muitos esqueletos ainda estão a sair do armário e, enquanto isso se adia, o financiamento à atividade económica não ressuscita. Sem ele, o investimento trava e a criação de emprego também. É preciso mais para crescer e de forma sustentada.

A capacidade de atrair investimento e capital estrangeiro exige ter as tais ganas que permitam abanar o sistema e criar vantagens competitivas e diferenciadoras na economia nacional. A elevada carga fiscal é apontada como um dos maiores constrangimentos ao investimento, por isso não deve estar fora do radar um choque fiscal como porta de saída para a crise.

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