Soares e Cavaco merecem ser homenageados?

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Os melhores presidentes de toda a República Portuguesa foram Costa Gomes e Ramalho Eanes. O primeiro é simplesmente ignorado ou desonestamente vilipendiado. O segundo foi agraciado há um mês por Marcelo Rebelo de Sousa com o Grande Colar da Ordem do Infante D. Henrique.

Costa Gomes ajudou a evitar, com infinita paciência, a guerra civil, a fratura sangrenta da sociedade portuguesa, o descontrolo de uma luta feroz pelo poder político cujo desenlace, também graças a ele, acabou por albergar dentro do regime, até hoje, todas as tendências políticas implantadas no terreno a seguir à Revolução dos Cravos.

Costa Gomes sacrificou a sua própria imagem e credibilidade pessoais para o bem do país e saiu acusado de ser protocomunista, de ter pensamento errático, de ser politicamente titubeante. Acontece que o resultado final, objetivo, da sua ação como presidente da República foi a entrega ao sucessor de um Estado democrático estruturado e viável, o que entre 28 de setembro de 1974 (a data do primeiro golpe spinolista que levaria Costa Gomes à presidência) e 2 de abril de 1976 (quando a Constituição foi aprovada) era altamente improvável.

Ramalho Eanes, quando recebeu a justa e rara condecoração que atrás referi (por acaso a companhia para Eanes nesta Ordem, que só tinha três titulares, é quase embaraçosa: o ditador António de Oliveira Salazar, o "Goldman Sachs" Durão Barroso e, vá lá, o último governador de Macau, Rocha Vieira), já ouvira, dias antes, o elogio do atual Presidente às suas qualidades pessoais que todo o país lhe reconhece: "Sério, honesto, austero, corajoso, incorruptível."

Ele começou por ser eleito com o apoio dos partidos mais à direita contra os abusos à esquerda mas seria reeleito como candidato dos partidos mais à esquerda (sem Mário Soares) contra a tentação autoritária à direita, impondo-se, de forma singular, aos limites ideológicos num tempo em que a ideologia era tudo. O grave erro iconoclasta chamado PRD não deixou, graças a Deus, rasto.

Os antigos presidentes da República, Mário Soares e Cavaco Silva, foram agora homenageados. Merecem? Se olharmos só para as suas qualidades políticas e pessoais, sim. Mas se olharmos também para os seus defeitos, comparando-os com os defeitos de Costa Gomes e de Eanes, a resposta já será um "sim, talvez, mas...": afinal o Portugal corrupto, clientelar, gastador, consumista, fútil, individualista, improdutivo, sem soberania económica e entregue à incompetência e bandidagem financeira criou-se e medrou com eles na liderança. Esse legado a que nenhum dos dois, apesar das diferenças ideológicas, pode fugir tomba demasiado na vida presente de todos nós para não pesar, também, na vida passada de ambos.

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