Política POSITIVA, senhora Cristas?

Quase todos os dias tenho de passar, lentamente, atrapalhado pelo tráfego, frente a um cartaz estampado com a cara simpática de Assunção Cristas, a líder do CDS-PP, partido da oposição, que posa sorridente ao lado de uma frase de propaganda: "Política POSITIVA".

Sim, a segunda palavra está toda escrita em maiúsculas, como se tentasse entrar-me pelos olhos, direta ao lóbulo occipital, lançada depois à velocidade da luz contra o cerebelo para ficar memorizada nos meus neurónios mais recônditos: "Não te esqueças ó distraído, esta senhora é PO-SI-TI-VA!"

A mulher que todos os dias me perturba a fila de trânsito, há meses, com a promessa de protagonizar uma maneira construtiva de fazer política, atirou-se levianamente ao primeiro-ministro para o acusar de "plantar" no jornal Público uma notícia desagradável para o CDS, o que se verificou ser mentira. E obrigou o jornal a defender-se de uma acusação, irresponsável, de que teria aceitado fazer um frete ao governo, o que desilude todos aqueles que acreditam na costumeira retórica do partido cristão sobre o valor sagrado para a democracia da liberdade de imprensa.

Afinal, constato, na política POSITIVA, tal como na política negativa, a imprensa só é boa quando as notícias dão jeito. Se as notícias incomodam, a imprensa já não presta... Critiquem Trump, critiquem.

A mulher que todos os dias, na estrada, tenta demonstrar que há algo mais a fazer na vida política do que perder tempo em picardias inúteis, foi precipitadamente queixar-se ao Presidente da República de falta de democracia no Parlamento, onde, por acaso, neste momento, nenhum partido tem maioria e tudo o que de lá sai para o país, tudo o que lá é decidido, tem de ser negociado e consensualizado entre diversos grupos minoritários, a maior parte das vezes à esquerda, é verdade, mas algumas vezes também à direita e, até, ocasionalmente, sem divisões ideológicas claras, num saldo de participação efetiva de todos os partidos nas decisões legislativas que não tem paralelo na história democrática do país.

Afinal, concluo, para a política POSITIVA, tal como para a política negativa, a democracia só floresce quando se ganha e está sempre em perigo quando se perde.

A mulher que todos os dias, num outdoor gigantesco, rouba sol aos automobilistas para os iluminar com a a esperança de uma redenção moral da política, relativiza a falha ética de Paulo Núncio, ex-secretário de Estado , que inicialmente atirou para a Autoridade Tributária as culpas da falta de informação sobre a saída do país de dez mil milhões de euros para paraísos fiscais: só depois de desmentido inequivocamente pelo anterior responsável desse serviço é que o também dirigente do CDS-PP assumiu o erro. Este ziguezaguear até leva a senhora Cristas a elogiar a "elevação de carácter" do advogado fiscal, agora suspeito de ter inviabilizado ou adiado uma substancial cobrança de impostos entre 2011 e 2014. Tudo bem. Só não percebo que tal interpretação caridosa da ética na política não se estenda a Mário Centeno, o atual ministro das Finanças, depois de ele ter confessado um "erro de perceção" para se desculpar da trapalhada que arranjou com a dispensa de declaração de património prometida aos administradores da Caixa Geral de Depósitos.

Afinal, observo, a política POSITIVA, tal como a política negativa, é extremamente moralista com os adversários mas desculpa todos os erros aos aliados e amigos.

Hoje, ao passar junto ao cartaz do sorriso de Cristas, irei olhar a frase "Política POSITIVA" e, no meu cérebro, memorizarei outra palavra em letras gordas: "HIPOCRISIA".

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