Guterres é o homem de que a ONU está a precisar?

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Um dia um jornalista veio ter comigo, era eu diretor do jornal 24horas: "Tenho a manchete!" A notícia era esta: o ex-primeiro-ministro António Guterres dava aulas gratuitas de Matemática no pior bairro de Lisboa, a Cova da Moura.

Daria mesmo uma bela primeira página: bastava colocar uma equipa de reportagem, no dia certo, à porta da sala de aulas. Preparei tudo.

Aconteceu que um antigo assessor do governo de Guterres me fez chegar esta mensagem: "Guterres quer manter estrito anonimato, afastou-se da vida política portuguesa e essa notícia pode dar ideia de que ele pretende, de alguma forma, regressar ao ativo. Isto é a vida privada dele, não se metam..."

Noventa por cento das vezes em que me vi metido em discussões sobre se um facto é, ou não é, matéria exclusiva da vida privada de alguma figura pública defrontei, na realidade, uma tentativa de silenciar uma notícia legítima e não um conflito deontológico do jornalismo. E esta notícia sobre Guterres era legítima.

Mesmo assim cancelei o trabalho, para grande tristeza do jornalista que entrara feliz no meu gabinete e, pior, com a consciência de que prejudicava os leitores do meu jornal porque alguém acabaria por publicar a história de que eu abdicava - e assim aconteceu.

Porque não quis eu publicar aquela notícia? Porque o facto de Guterres não querer surgir aos olhos da opinião pública como benemérito - eu que estava habituado a políticos capazes do pior para aparecerem nos jornais - me assoberbou: "Como posso não respeitar a vontade de alguém que recusa o mais fácil dos aplausos públicos?"...

António Guterres foi um primeiro-ministro medíocre: entre outras coisas más aceitou que a União Europeia continuasse a subsidiar a destruição de uma significativa parte do setor produtivo do país, erro que hoje pagamos duramente.

Como alto-comissário da ONU para os Refugiados saiu, em 2015, deixando 65,3 milhões de deslocados no mundo. Quando tomou posse desse cargo, em 2005, eram apenas 9,2 milhões. "O homem não teve culpa disso!", dirá o leitor. É verdade, mas por isso mesmo o seu consulado no ACNUR é, objetivamente, um monumento à impotência política.

Tenho, igualmente, muitas dúvidas de que Guterres consiga cumprir os objetivos mais ambiciosos do caderno de encargos que apresentou ontem para o mandato de secretário-geral das Nações Unidas... Então com Trump a querer "entalar" a China... ui!

Não conheço António Guterres mas, apesar das anteriores derrotas e dos grandes erros, mesmo que volte a falhar, ganhou, ao recusar dar-me aquela notícia, todo o meu respeito: é um ser humano decente. Pode ser que seja apenas isso que a ONU precisa.

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