A "gerigonça" está em perigo?... Está

O tema que une a maioria das alterações políticas no mundo desde 2008 não é o racismo, não é o terrorismo, não é a imigração, não é o islão, não é a segurança, não é a globalização, não é o clima, não é a austeridade, não é o nacionalismo, não são os mercados bolsistas, não é o populismo, não é a automatização, não é, sequer, a distribuição da riqueza.

O assunto mais transversal no debate público, seja na União Europeia, nos Estados Unidos, na China, nas Filipinas, na Coreia do Sul, no Brasil, na Venezuela, em África ou no Leste Europeu, é o da promiscuidade entre quem domina o Estado com quem manda nos negócios, é o da corrupção sofisticada. Não será o problema mais importante, mas é o mais discutido.

Nas recentes vitórias eleitorais que abalaram ou confortaram o pensamento dominante ocidental - o Syriza na Grécia, Donald Trump nos Estados Unidos, o brexit no Reino Unido, Emmanuel Macron em França - houve também uma face de protesto contra o pântano político/financeiro que corrompeu Atenas, Washington, Londres, Paris, Bruxelas, Wall Street, a City, o FMI, o Fed, o BCE, os grandes fundos de investimento, o sistema bancário e os mercados de transações financeiras globais. Correr com "os do costume" satisfez, para já, muitos desses votantes.

Pedro Passos Coelho acabou por ganhar as últimas eleições em Portugal, embora sem maioria para formar governo, entre outras razões porque uma parte do eleitorado receava o regresso ao poder do Partido Socialista e, com ele, a reescalada ao píncaro da corrupção nacional.

No domingo, um dos derrotados pelos êxitos da "geringonça", António Barreto, escrevia aqui no DN que a verdadeira "obra-prima" (sic) de António Costa foi ter conseguido desassociar-se de José Sócrates e do seu governo que "apoiado nalguma banca pública e privada, ajudado por um bando de empresários sem escrúpulos e assessorado por consultoras internacionais complacentes, atingiu níveis de endividamento único na história de Portugal, assim como de corrupção, de desperdício de recursos, de destruição de empresas públicas, de favoritismo em concursos e nomeações..."

Pois é este capital político que António Costa coloca em perigo com a nomeação de figuras do antigo "arco da governação" para liderar instituições como a Caixa Geral de Depósitos ou a TAP, dando o sinal de que o "bloco de interesses", que sempre originou a corrupção no país, está, afinal, de boa saúde e operacional.

É este capital político que António Costa coloca em perigo quando nomeia um amigo para o conselho de administração da TAP ou quando uma sobrinha do líder parlamentar do PS aparece contratada por uma empresa da Câmara de Lisboa.

É este capital político que António Costa coloca em perigo quando "deixa acontecer" o acordo "por debaixo da mesa" com António Domingues na CGD ou o ridículo bilhete e viagem para um jogo de futebol ofertado pela Galp e aceite por um secretário de Estado.

Este é também capital político do PCP e do Bloco de Esquerda, que estiveram sempre fora destas negociatas que beneficiaram também, muitas e muitas vezes, o PSD e o CDS.

E se PCP e Bloco podem, por enquanto, ceder alguma coisa ao PS e à União Europeia em matérias económicas - em nome do bom senso e da melhor solução possível, no curto prazo, para os mais desfavorecidos - não podem é ceder em matérias de promiscuidade política/financeira e em matérias de corrupção, pois a sua própria sobrevivência política seria, dessa forma, posta em causa.

Por isso, pela primeira vez desde 24 de novembro de 2015, a "geringonça" corre o perigo de avariar.

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