A democracia inglesa é exemplo para alguém?

Apresentar a Inglaterra como um exemplo de democracia perfeita, como é costume ler por aí, é das bizarrias mais estranhas do pensamento banal que domina a nossa sociedade.
A Inglaterra é um país extraordinário com um povo extraordinário. Desenvolveu processos de organização democrática que serviram, no passado, de belos exemplos para a humanidade. As lutas dos seus trabalhadores e dos seus pobres contra a exploração capitalista mais desumana contribuiram para a obtenção de conquistas sociais que se generalizaram em muitos locais do mundo. A sociedade britânica desenvolveu relações de tolerância, de respeito pelos direitos e liberdades dos indivíduos, de aceitação da diferença, que lideraram transformações legislativas seguidas em muitas partes do planeta.
Mas estamos no século XXI e, para o tempo de hoje, a democracia política inglesa não é, em muitos aspetos fulcrais, exemplar.
Somar a uma família real na chefia do Estado mais de 800 lordes vitalícios numa câmara alta que supervisiona a legislação dos eleitos do povo é formalmente tão democrático como o processo que leva os herdeiros de Kim Il Sung a mandarem na Coreia do Norte.
Na democracia inglesa parte do poder político, nada irrelevante, é assegurado por pessoas que têm direito a ele apenas por terem nascido na família certa (algumas herdeiras de senhores feudais, de piratas a soldo do estado e de torcionários ao serviço do império colonial britânico), por serem membros ilustres do clero ou por serem pessoal político nomeado diretamente pelos diretórios partidários (que hoje em dia, aliás, formam a esmagadora maioria da Câmara dos Lordes).
Esta democracia, assim, está necessariamente longe de uma organização política justa de uma sociedade que se possa considerar avançada para o nosso tempo.
O referendo sobre a saída do Reino Unido da União Europeia foi o retomar, por parte desse país, do protagonismo dos avanços democráticos no mundo? A resposta está na sequência que irá ser dada ao resultado a favor do Brexit e na repercussão real, passadas as exageradas emoções dos primeiros dias, que o exemplo britânico provoque.
Se o resultado for o reforço dos sentimentos xenófobos na Europa, a resposta é não. Se a resposta for uma reforma da União Europeia que a leve para o respeito da soberania dos países e da vontade democrática dos povos, a resposta é sim.
Mas, neste momento, com o mundo financeiro em ebulição a tentar dar a volta ao texto e o crónico autismo dos líderes europeus a levá-los para a repetição dos mesmos erros que nos trouxeram até aqui, nem sequer podemos ter a certeza de que o voto de quinta-feira do povo britânico vá, de facto, ser respeitado... Temo, portanto, o pior.

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