Uma escolha, uma boa notícia e uma raridade

1. Tenho lido e ouvido muita gente a dizer que Macron como presidente da França seria um mal menor. Teríamos, assim sendo, que a escolha seria uma espécie de gradação do mal.

Apesar de não ter visto ninguém, em Portugal, a afirmar que lhe era indiferente a vitória de Le Pen ou de Macron, a desculpabilização que alguma gente de esquerda faz da posição de Mélenchon - que declarou não apoiar nenhum dos dois candidatos - e as adversativas utilizadas com muita ênfase impressionam.

Fillon, na provável única coisa de jeito que conseguiu dizer nos últimos meses, afirmou, no seu discurso de derrota, que votaria Macron porque uma coisa eram os inimigos da República, outra, completamente diferente, eram os adversários políticos. Hadley Smith, no The Guardian, perguntava se era a mesma coisa ter negacionistas do Holocausto no Eliseu ou neoliberais, ou se tinha alguma semelhança ter um presidente neofascista ou neoliberal.

Digamos que não perceber isto configura, logo à partida, um problema de entendimento do que está em causa nesta eleição. Ou, na melhor das hipóteses, uma vontade revolucionária escondida.

Uma vitória de Le Pen - até custa escrever por tão óbvio - seria o fim do projeto europeu, ter o neofascismo na presidência num país central para o continente, um retrocesso brutal em valores que julgávamos consolidados. Por muito que se não se concorde com Macron, a alternativa a ele é a de poder não voltar a ter alternativa tão cedo, ou seja, a própria negação da democracia.

Afirmar, como ouvi, que a vitória de Macron será apoiar uma linha que inevitavelmente levará ao crescimento dos problemas que trouxeram fenómenos como Le Pen - apesar de que em França a questão é mais complicada e tem razões históricas que não permitem resumir tudo à globalização, à falta de expectativas ou às razões que conhecemos para o crescimento destes movimentos pelo mundo fora - e que, portanto, será uma questão de tempo, nega a capacidade de os cidadãos modelarem os mandatos e, no limite, de mudar os protagonistas.

Provavelmente, as questões que levam os franceses a votar Le Pen não serão resolvidas por Macron, nem a União Europeia entenderá pela enésima vez que tem de repensar todo o projeto. Mas uma coisa é poder mudar, outra é fechar definitivamente a porta. Não poucas vezes fica a sensação de que se deseja a vitória de Le Pen para que se antecipe uma espécie de revolução. Imagino que existam verdadeiros democratas que desejam o fim do projeto europeu, mas será que querem que essa derrota seja pela mão de neofascistas?

Durante muitos e bons anos, na Europa, não se pôs o problema de se ter de escolher entre partidos que acreditam na democracia liberal, no Estado de direito e em direitos fundamentais inalienáveis e outros que, pura e simplesmente, os negam. Muitos erros foram e continuam a ser cometidos para que chegássemos a esta situação, mas a solução será uma melhor democracia e não o seu fim, será melhor Europa e não a morte do projeto europeu.

2. O Ministério Público acusou José António Saraiva de devassa da vida privada, na forma continuada.

Estão em causa dois parágrafos do livro Os Políticos e Eu sobre uma jornalista deste jornal, Fernanda Câncio, que a Procuradoria-Geral da República pensa indiciarem a prática do crime.

Podia-se simplesmente comentar dizendo que era uma boa notícia para o bom funcionamento da Justiça e que a defesa de direitos fundamentais tinha ganho uma batalha, mas convém salientar mais um par de coisas.

Em primeiro lugar, lembrar que, além da pulhice feita à jornalista, há mais pessoas, vivas e mortas, que viram a sua intimidade mais estrita violada por este indivíduo. Este livro não contém apenas várias devassas da vida privada, atentados à intimidade e puras e simples intrigas, é, em si mesmo, um atentado à mais comum decência.

Em segundo lugar, apesar de se saudar a boa decisão do Ministério Público, é bom ter presente que a violação de direitos básicos de personalidade tem passado impune em demasiadas situações.

Em terceiro lugar, é bem verdade que as autoridades têm um papel fundamental no combate a estas situações, mas, nós cidadãos, temos muita culpa no cartório porque pactuamos com todo o nojo que por aí prolifera - em livros deste género e em pasquins - quando encolhemos os ombros e até nos divertimos com as pulhices que fazem aos outros. Até que nos chegue a nós, claro.

3. Fernando Ulrich saiu, nesta semana, da presidência executiva do BPI. Há uns anos, escrevi aqui um texto a destratá-lo por causa do "aguenta, aguenta" e lembro-me de o ter criticado por outras palavras mal ditas. No que, de facto, importa, fica um mandato à frente dos poucos bancos que não precisaram da nossa mesada, dos que não se conhece vigarices e que passou por uma crise gigantesca do setor sem grandes abalos. Ulrich é a prova de que há bons gestores em Portugal - até na banca, onde ficou bem à vista que havia uma quantidade enorme de profundos incompetentes, sendo certo que em alguns casos não era esse o único defeito. Infelizmente, são poucos, demasiado poucos. A baixa qualidade da gestão em Portugal continua a ser um dos nossos maiores problemas - a nossa produtividade é uma das provas disso. Fernando Ulrich não é, infelizmente, a regra.

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