Partidos e sms

1. A transformação das máquinas dos partidos em autênticas agências de emprego é uma triste e perigosa realidade. Demasiadas vezes o factor decisivo para a atribuição de lugares no aparelho do Estado e de entidades ou empresas que dependem direta ou indiretamente dele é a lealdade cega ao líder ou ao presidente da concelhia ou distrital e não a competência e o alinhamento ideológico.

É, aliás, evidente a pouca preparação política e a vaguíssima consciência ideológica de gente que vive nos e dos partidos.

Particularmente nos partidos de poder e nos que estão, queira-se ou não, muito próximos ideologicamente: o PS e o PSD, os dois que se reclamam sociais-democratas.

Com o tempo, qualquer tipo de mínima afinidade política ou vaga convicção é totalmente substituída pela realidade da necessidade de sobreviver. Que capacidade tem alguém de ir contra as instruções de quem manda se um não representa o desemprego? E o desempregado da política não é um desempregado qualquer. Como cada vez mais gente nos partidos nunca conheceu outra atividade que não a política, nunca teve outro emprego que não o arranjado pelo partido, uma nega significa a perda dos meios de vida sem perspetiva de arranjar outros. E esta circunstância chega bem alto. A Assembleia da República está cheia destes exemplos. E não é só pelo cargo em si. Ainda há pouco tempo se falava de deputados/advogados que prestavam serviços a câmaras municipais. Não é preciso ter qualidades mediúnicas para se saber que esses deputados/advogados prestam serviços a câmaras municipais geridas pelos partidos pelos quais são deputados.

Aliás, um dos problemas do Estado tem que ver com a reprodução da lógica das lutas internas dos partidos na gestão da coisa pública: o bem comum torna-se secundário face ao interesse do grupo que o colocou naquele lugar. Nada de surpreendente, toda a formação desse cidadão seguiu essa lógica.

Parece evidente, na circunstância de os partidos pouca ou nenhuma formação darem aos seus profissionais e desincentivarem de facto a liberdade de pensamento, que é fundamental a chegada, o regresso ou a simples manutenção e promoção de quem não está dependente da política para sobreviver (podia dizer-se o mesmo de quem dá opinião, mas isso daria outro artigo com contornos diferentes mas de resultado similar). No entanto, o bloqueio da máquina à chegada destes é enorme, e cada vez maior. Todas as máquinas repelem o que funciona de maneira diferente.

Perante estas circunstâncias, é normal que os cidadãos vão perdendo a confiança nos partidos e já não os vejam como um elemento fundamental na democracia - que são -, mas como entidades que a estão a minar.

Esta longuíssima introdução para chegar aos acontecimentos do Porto e à rutura entre o PS e Rui Moreira.

Estando os partidos a funcionar de uma forma ideal ou com os defeitos que muitos lhes vemos, é normal que quando apresentam candidatos ou escolhem pessoas para cargos o façam entre gente da sua confiança. Quando há uma coligação é também absolutamente normal que cada uma das partes queira colocar mais gente que idealmente partilha os mesmos interesses e as mesmas convicções.

Podem existir muitos pormenores no processo que levou à quebra da coligação O nosso partido é o Porto/PS, mas, no limite, a questão resume-se a quem iria ter mais gente mais próxima de cada uma das partes. E, em tese, não há problema nenhum nisso.

Estranho é António Costa ter anunciado em pleno Congresso do PS o apoio a uma candidatura sem que tivesse combinado com Rui Moreira os termos da aliança. Incompreensível é que António Costa, com a leveza com que tratou o assunto, seja o maior responsável pelo ruir de um projeto que estava a correr bem e que toda a gente assobie para o lado.

2. Marques Mendes afirmou que Júlio Magalhães tinha sido convidado pelo PS para ser candidato à Câmara Municipal do Porto e que a administração do Porto Canal teria até reunido por causa desse convite.

Júlio Magalhães, em declarações à SIC, disse que tinha recebido um sms de alguém, que tanto podia ser do PS ou não, a convidá-lo para uma candidatura.

Se o Júlio Magalhães não quer saber quem lhe faz convites, e logo para ser candidato a uma câmara como a do Porto, é lá com ele. Segundo as suas palavras, já foi convidado muitas vezes para muitas câmaras e, presumo, por já ser rotina nem liga e nem quer saber, sequer, quem o convida.

Se Júlio Magalhães não sabe quem o convidou, nem o partido que fez o convite, nem a pessoa, como é que Marques Mendes sabe? É que na quarta-feira o jornalista ainda não sabia - pronto, é pouco curioso. Mendes conhece o número de quem mandou a mensagem ao diretor do Porto Canal? O emissor disse-lhe, apesar de não ter dito ao jornalista? E não é um bocadito estranho a administração do Porto Canal fazer uma reunião de urgência por causa de um sms que não causou qualquer sensação ao convidado?

Sim, isto não passa de um fait divers que até já deve estar esquecido, mas Marques Mendes tem responsabilidades que lhe advêm não só de ser visto por muitos milhares de pessoas mas também por ser conselheiro de Estado. Não há quem não se engane ou seja enganado, é da vida, mas quem decide dar notícias e não só opiniões tem responsabilidades acrescidas. Eu gostava, como espectador assíduo, de manter a confiança nas notícias que Marques Mendes dá. E não devo ser só eu.

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