Irresponsabilidade e deslumbramento

1. Assunção Cristas sabia que o nosso sistema financeiro tinha problemas sérios. Não é possível que desconhecesse o plano de resgate que tinha como um dos dois eixos centrais a questão bancária nem que estavam 12 mil milhões de euros orçamentados para ajudar à solução do problema. A líder do CDS era das mais importantes dirigentes do seu partido e era ministra, saberia, com absoluta certeza, muito mais do que qualquer cidadão informado. Tinha mesmo de saber. Qualquer insinuação de que ela não estivesse a par do estado do nosso sistema financeiro seria ofensivo para a sua dignidade e inteligência.

No entanto, esteve em dezenas de conselhos de ministros e não se espantou que não se falasse do assunto. Lia as notícias, ouvia os debates, falava com os seus colegas de partido e amigos do assunto - é inverosímil que não o fizesse - e chegava ao Conselho de Ministros e calava-se. E achava normal que se falasse de tudo menos de um problema central para o país.

Na entrevista que deu ao Público, onde tentou atirar todas as responsabilidades da negligência do anterior governo no que diz respeito ao sistema financeiro - e de várias outras coisas - para o seu antigo parceiro de coligação e até para o antigo líder do seu próprio partido, assumiu que assinou de cruz a resolução do BES, "não houve discussão nem pensámos em alternativas", "sim senhora, isso é para fazer, damos o OK". Claro, era urgente. E, que diabo, o que podia Assunção fazer? Ela não se tinha interessado pelos problemas da banca, ela nem sequer tinha perguntado por eles, como poderia ter pensado em alternativas se nem sequer tinha discutido o assunto? Coitada, era assinar e confiar em quem sabia do assunto.

Passos Coelho, em jeito de resposta à líder do CDS, disse que nenhum ministro foi impedido de "suscitar as matérias que pudesse achar da maior relevância, nem nunca nenhum ministro poderá dizer que não discutiu aquilo que achasse relevante discutir". Ou seja, o ex-primeiro-ministro confirmou que Assunção Cristas nunca quis saber.

Chama-se irresponsabilidade.

Apesar de a entrevista à ex-ministra ser reveladora do seu comportamento político e da forma como viu o seu papel no governo, a reação do ex-primeiro-ministro foi bem mais significativa. Relembrou-nos traços essenciais da forma como se olhou para a governação.

Passos Coelho foi, mais uma vez, claro: sistema financeiro, banca e o dossiê BES, em concreto, foram questões em que o governo decidiu não intervir, com exceção da aprovação de alguns diplomas para o setor. Ou seja, apesar de os problemas do sistema financeiro serem um dos dois pilares do programa de resgate, de ter sido disponibilizada uma verba de 12 mil milhões de euros para o efeito - da qual não foi utilizada metade - e de os problemas do BES, do Banif e da CGD, entre outros, serem conhecidos, o governo optou politicamente por não intervir. Um caso claro de deslumbramento ideológico com as consequências conhecidas.

Conto-me entre aqueles que em matérias económicas tendem a preferir uma intervenção do Estado limitada, mas quando a realidade se impõe atirar um carregamento de livros cheios de ideologia para a fogueira não apaga o fogo. Como aconteceu em todos os países que se viram a braços com problemas graves no seu sistema financeiro (Irlanda e Espanha, por exemplo), os governos não hesitaram em intervir diretamente, na própria gestão até. Em Portugal, chegou-se ao cúmulo de o governo ignorar olimpicamente a situação no próprio banco do Estado.

A situação em Portugal era tão grave que era o interesse público mais evidente que estava em causa. Um momento de excecionalidade. Mais que não fosse, por se estar perante uma situação em que havia uma grande probabilidade de serem os cidadãos a pagar a fatura - como veio e está a acontecer. O que estava a acontecer no nosso sistema financeiro e no BES transcendia, nessa altura, questões de regulação e de supervisão bancária.

É, sobretudo, nestes casos que os representantes do povo têm de assumir as suas responsabilidades. É exatamente nestas ocasiões que os eleitos não podem delegar e têm de exercer diretamente o poder que lhes delegamos.

O erário público pode e deve servir para tentar evitar males maiores, mas depois quem tem de dispor dele não pode estar de braços cruzados apenas esperando que a conta seja enviada.

O anterior governo terá acertado e errado em muitas das suas opções, mas o desleixo com que tratou os problemas do sistema financeiro, a forma como alijou as suas responsabilidades, é o maior erro que cometeu, e um que pagaremos por muitos e bons anos.

2. Já seria mau escolher Teresa Leal Coelho, que, sendo vereadora, passou o mandato sem que se lhe ouvisse uma palavra sobre a cidade, a quem não se conhece uma única ideia sobre Lisboa, que é recordista de faltas em reuniões camarárias. Juntando a isso o facto de toda a gente saber que só foi escolhida depois de um folclore imenso de recusas e mais recusas torna tudo ainda pior.

Se fosse Fernando Medina a conduzir o processo de escolha do candidato do PSD, não teria feito melhor.

Mas, de longe, o mais grave de todo este lamentável processo é perceber-se que o PSD não consegue atrair novos quadros, não consegue alargar a sua zona de influência, e a gente com talento que ainda tem foge de dar a cara pelo partido.

As autárquicas poderão não pôr em causa a liderança, mas os resultados do PSD vão deixar claro que são precisas profundas mudanças para que o partido regresse ao poder.

Do mesmo autor

Mais em Opinião

Conteúdo Patrocinado

Mais popular

  • no dn.pt
  • Opinião
Pub
Pub