A corrente só corre para alguns

O sol quando nasce tem de ser para todos, não só para os que conseguem gritar mais alto

Não falta quem anuncie o fim do estado de graça do governo por causa do prenúncio de várias greves. O primeiro-ministro encolhe os ombros e cita o Sérgio Godinho: "A sede de uma espera só se estanca na corrente." António Costa acha que, depois de todos os sacrifícios impostos aos portugueses e havendo alguma recuperação económica, é normal que apareçam reivindicações.

O curioso é que, pelos vistos, os únicos que se acham com direito a obter alguma compensação pelo (aparente) maior desafogo sejam apenas funcionários públicos e os juízes, que umas vezes reivindicam como titulares de um órgão de soberania, outras como funcionários públicos. Ou seja, sede não falta, mas parece que só alguns serão saciados.

Ninguém nega que os funcionários públicos e equiparados foram vítimas de muitas malfeitorias durante os anos mais apertados da crise - e começaram antes do governo anterior. À paragem administrativa na evolução das carreiras foram acrescentados aumentos de horários e cortes nos salários. Mais, havia, há e é mesmo popular um preconceito latente contra os funcionários públicos. Não há quem não saiba dos defeitos de funcionamento da função pública e de alguns dos seus profissionais. Mas o que demasiadas vezes se esquece é que sem uma administração e um setor público a funcionar bem e com os seus trabalhadores devidamente motivados não há país que evolua. E não há como ignorar que há vários postos na função pública mal pagos e muitíssimas pessoas que cumprem as suas funções com um autêntico espírito de missão.

Sendo tudo isto certo, também é factual que os mais penalizados pela crise foram e ainda são os trabalhadores do setor privado: os salários da função pública não foram, apesar dos cortes, afetados pela crise como os das empresas privadas, não correram o risco de ficar desempregados e mesmo os precários, dentro em pouco, passarão a efetivos.

A recuperação económica deve--se a muitos fatores, já se sabe. A atividade privada tem um papel fundamental na recuperação económica, quer seja, por exemplo, na continuação do excelente papel das indústrias exportadoras e no turismo. O desemprego diminui por causa dos postos de trabalho criados no setor privado - e o pouco investimento que vai aparecendo não é público, mas sim privado.

Neste esforço comum parece que está a ser esquecido o papel dos trabalhadores das empresas privadas.

É muitas vezes dito que cada classe profissional luta pelos seus direitos e se não se consegue organizar para os defender o mal é dela. De facto, a capacidade dos trabalhadores do setor privado e o abandono dos sindicatos das atividades não ligadas ao setor público contribuiu para uma diminuição clara do seu poder reivindicativo. Os sindicatos, em vez de tentarem organizar os trabalhadores, vão-se desculpando com as leis laborais que permitem despedimentos mais fáceis diminuindo (dizem eles) a presença dos sindicatos como entidade representativa. É uma clara desistência dos sindicatos em relação a trabalhadores que mais precisam de ter interlocutores face às entidades patronais, não só para que vejam os seus direitos defendidos mas também para que as relações laborais sejam mais profícuas de forma a que a produtividade e a competitividade sejam melhoradas.

Foram estes que viram o seu poder de compra mais diminuído, os que mais sofreram com o desemprego, os que mais tiveram de recorrer à emigração. E, segundo conclusões do Observatório sobre Crises e Alternativas, a precarização, no setor privado, claro está, está a aumentar e está-se a acentuar a tendência para a desvalorização salarial.

Mas, claro, é mais fácil organizar greves com gente que não corre o risco de ser despedida, que não está sujeita a reestruturações, que não teme pelo futuro do seu posto de trabalho. Enche-se a boca dos direitos dos trabalhadores, desde que sejam do setor público, bem entendido.

Parece evidente que, tendo os funcionários públicos e as suas estruturas representativas noção de que as suas reivindicações, hoje por hoje, criarão uma pressão suplementar numas contas públicas ainda muito debilitadas, que os trabalhadores do setor privado ainda estão cada vez mais longe de recuperar o que eles recuperaram e que o desemprego ainda é enorme, mostram uma consciência de sentido comunitário, uma noção de bem comum, no mínimo, duvidosa. É que os desequilíbrios orçamentais, como sabemos, acabaram por ser pagos, numa larguíssima fatia, por os trabalhadores do setor privado.

É verdade que um dos maiores pecados do anterior governo foi ter tentado criar uma espécie de luta dentro da comunidade: velhos contra novos, reformados contra trabalhadores em atividade, funcionários públicos contra privados. O que também pode ser dito é que os funcionários públicos, estando a exigir o que é manifestamente cedo para exigir, beneficiando de um estatuto especial, estão a contribuir para a criação de um clima confrontacional entre funcionários públicos e privados. Ou seja, a fazer o mesmo de que acusaram o anterior governo.

O governo tem de perceber que não vale tudo para evitar greves. Deve ser ele o primeiro a perceber que não se pode comprar uma suposta paz social dando tudo a uns quando os outros ainda estão longe, cada vez mais longe, de terem os níveis de vida que tinham antes da crise. Não pode ser por tentar manter os parceiros de coligação em paz com algumas das suas bases de apoio satisfeitas que manterão o país coeso e motivado.

O sol quando nasce tem de ser para todos, não só para os que conseguem gritar mais alto.

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