Turismo, a galinha dos ovos de ouro?

Veneza em julho ou em agosto parece estar em guerra", diz a responsável do Departamento de Turismo. Aliás, ainda há poucas semanas mais de dois mil cidadãos de Veneza saíram à rua contra o excesso de turismo que está a expulsá-los da cidade.

Os números comprovam esse êxodo: em meados do século passado viviam lá mais de 175 mil pessoas, agora há apenas 50 mil residentes e as previsões demolidoras avisam que em 2030 não haverá quaisquer habitantes no centro da cidade. Os 30 milhões de turistas anuais estão a fazer as suas vítimas.
O caso de Veneza não é único. Outras cidades europeias estão também confrontadas com o problema: Barcelona, Berlim ou Roma estão no mesmo barco, só para nomear algumas. O turismo de massas está a testar os limites das cidades e as queixas são recorrentes: os preços de arrendamento dispararam com a pressão do alojamento local, o comércio tradicional dá lugar a franchises e lojas de souvenirs e o trânsito vira um caos entre tuk-tuks, autocarros de turismo e magotes de pessoas atrás de uma bandeirinha colorida.

As cidades estão a morrer às mãos do turismo de massas? Essa é a pergunta-chave. A pressão turística em excesso está a levar a uma descaracterização das cidades. O risco é o de se transformarem em parques temáticos, perdendo a identidade e reduzindo a sua história a uma narrativa fantasiosa de guia turístico.

Contudo, o problema não se esgota apenas nas cidades, a situação é global: Machu Picchu estava a rebentar pelas costuras, com horas de espera e filas de quilómetros para entrar no santuário inca; na Tailândia, o excesso de turismo nas ilhas paradisíacas impedia a regeneração dos recifes de corais; em Santorini, a extraordinária ilha grega, os funcionários públicos estão a rejeitar prestar serviço lá porque não conseguem pagar os preços exorbitantes para alugar uma habitação; as aldeias de Cinque Terre, em Itália, não conseguem lidar com a quantidade de turistas que os cruzeiros despejam nas suas ruas. E a lista continuaria para lá dos caracteres permitidos para este artigo.

Como responder então às pressões que estão a ser colocadas pelo turismo? Esse é um debate que está a ser feito à escala global, mas parece ser tabu no nosso país. O turismo é apresentado como a galinha dos ovos de ouro da atualidade, absolutamente inquestionável. Essa fuga para a frente é um erro que pagaremos caro.

Os números não enganam: o crescimento do turismo brutal, imprescindível para a retoma económica, fundamental para as exportações e gerador de emprego. Por isso mesmo, foi aposta fundamental dos recentes governos e é baluarte de Rui Moreira e Fernando Medina, presidentes das câmaras do Porto e de Lisboa, respetivamente. Apenas focados no presente e nas suas recandidaturas, nenhum questiona como será o futuro se continuarmos este caminho. A primeira lei da dialética explica bem o que acontece a seguir: a quantidade muda a qualidade!

A monocultura do turismo de massas tem exatamente os mesmos problemas da monocultura do petróleo. Neste caso, estamos a apostar num setor de mão-de-obra intensiva, com baixas qualificações e vínculos precários, muitas das vezes informais. Acresce que o fazemos correndo o risco de construir uma caricatura das nossas cidades e bairros históricos.

Os habitantes que dão vida às cidades e aos bairros históricos, que transportam a sua história e identidade e são admirados pelos turistas que nos visitam são as mesmas pessoas que passam quotidianamente o inferno do mar de tuk-tuks e o caos do trânsito, que não conseguem encontrar habitação a preços decentes porque as rendas dispararam ou que foram despejados pelo alojamento local ou para a construção de um hostel.

Matar a galinha dos ovos de ouro é permitir que o excesso de turismo destrua o que nos torna únicos e atrativos. É necessário fazer o debate para tornar sustentável o turismo e começar a estruturar instrumentos para lidar com o seu excesso. Pensar as cidades para as pessoas e não apenas para os turistas, ter políticas de habitação que garantam que não enfrentaremos um êxodo dos centros das cidades, ter a coragem de limitar o excesso de turismo garantindo o futuro do setor e das cidades. As possibilidades são várias, temos é de assumir esse desafio: pensar e agir hoje, para garantir o amanhã.

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