Foi um dos primeiros gestos de Donald J. Trump mal acordou na Casa Branca, na primeira manhã como presidente dos Estados Unidos. Pediu que lhe trouxessem ao telefone o responsável pelo Serviço de Parques Nacionais. Nascido no Parque Nacional de Yosemite, Michael T. Reynolds é atualmente diretor interino do serviço e cresceu numa família dedicada ao Serviço de Parques Nacionais. Há três gerações..Michael T. Reynolds gere 413 parques nacionais, em sete regiões dos Estados Unidos, mas não era exatamente por preocupações ambientais ou patrimoniais que o presidente queria falar com ele na manhã de sábado da semana passada. O Serviço Nacional de Parques tem outra função, é responsável pelo National Mall, o longo parque ladeado por museus e monumentos, com o monumento a Washington de um lado e o Capitólio no outro topo. Para espanto de Michael, Trump exigia provas fotográficas da "gigantesca multidão" que tinha assistido à posse no dia anterior. Trump queria imagens, prova fotográfica irrefutável de um Mall cheio que nem um ovo, e barafustou contra uma publicada no Twitter, na conta do Serviço de Parques Nacionais, que mostrava, lado a lado, o Mall na véspera e o Mall em janeiro de 2009, no dia da posse de Barack Obama..Que Trump tenha dedicado parte das primeiras horas em funções a exigir o impossível e a destratar o diretor interino do Serviço de Parques Nacionais é algo que, estranhamente e ao fim de apenas uma semana de presidência, soa a normal. Um gesto pequeno de um homem dominado pelo ego, um narciso impulsivo, uma criança mimada que a maior democracia do mundo pôs aos comandos da maior potência militar do globo. Já agora, alguém devia explicar a Trump que a democracia não se esgota na legitimação pelo voto..A primeira semana de Trump foi uma fiel caricatura do homem, daquelas que carregam em todos os traços certos. Nada do que assinou numa orgia de decretos presidenciais sai um milímetro do anunciado, do prometido. As promessas cumpridas de Trump revelam o que já sabíamos, mas tínhamos uma secreta esperança de que não acontecesse. As marcas de nacionalismo, populismo e autoritarismo do discurso de posse são mesmo para levar a sério. É bom que as levemos a sério..A candura com que assumiu que acredita nos poderes da tortura, a tranquilidade com que anunciou filtros ideológicos e religiosos à entrada de refugiados e imigrantes nos Estados Unidos - no dia da memória do Holocausto -, a forma como assinou por baixo a declaração do seu principal estratega, o especialista em fake news e factos alternativos Steve Bannon, de que "a imprensa humilhada devia calar a boca", o ter apresentado os jornalistas como estando "entre as pessoas mais desonestas do mundo", porque não veem os factos tal como ele os vê, como ele quer que a nação os veja. Depois, as ameaças às empresas que não produzem nos Estados Unidos, as promessas de baixa de impostos e de uma nova vaga de desregulação. Tudo notícias que deixaram Wall Street com um sorriso nos lábios, e o Dow Jones a bater recordes históricos. Por fim, tivemos na presidência dos Estados Unidos o constante recurso à hipérbole, ao superlativo, a que nos fomos habituando durante a campanha..As palavras e os gestos de Donald J. Trump deixam poucas dúvidas sobre as intenções do homem. Se o sistema de pesos e contrapesos da democracia norte-americana vai conseguir resistir-lhe ainda é cedo para avaliar. Passou uma semana. Para lá do sistema, há uma América acordada, desperta para riscos, preparada para resistir, e outra a tentar entender o que se está a passar. Na Amazon, ainda ontem, o 1984 de George Orwell era o livro mais vendido.