O lado negro da força

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Agora está claro. Se dúvidas houvesse, e muitos duvidaram, Donald J. Trump vai comportar-se na Casa Branca como sempre se comportou enquanto empresário, estrela de reality show e candidato. A conferência de imprensa da semana passada é o último exemplo de que este homem dificilmente será "normalizado" pelo peso institucional da presidência ou de Washington.

E chega lá, à Casa Branca, com suspeitas de interferência do Kremlin na campanha, e com a promessa de que os negócios, domésticos e fora de portas, vão continuar a ser um assunto de família. Há algo de profundamente errado num presidente que promete, numa entrevista, rever a posição dos Estados Unidos em relação à Rússia, admitindo levantar sanções, horas depois de ter concedido que houve, de facto, interferência de Moscovo na campanha democrata.

Não são novidade, ainda assim, as campanhas negras nos Estados Unidos. Dois exemplos. Em 1824, John Quincy Adams conquistou a presidência depois de uma eleição em que nenhum dos candidatos conseguiu a maioria dos votos no colégio eleitoral. Adams conseguiu a Casa Branca contra o mais votado Andrew Jackson, herói da batalha de Nova Orleães. Foi a primeira eleição decidida pela casa dos representantes. A meio do mandato, e já com a certeza de que Jackson iria tentar atrapalhar a sua reeleição, Adams enviou um inglês para o Tennessee, em busca de informações sobre a mulher de Jackson, Rachel. Pouco tempo depois surgiam notícias dando conta do estado de bigamia em que Andrew e Rachel viveram enquanto ela não conseguiu o divórcio do primeiro marido. Adams pouco aproveitou esta campanha negra, e não foi reeleito para um segundo mandato.

Nas primárias de 1988, o diretor de campanha do democrata Mike Dukakis fez chegar uma cassete de vídeo a um jornal local. As imagens mostravam um discurso do então candidato a candidato Joe Biden - agora absolutamente consensual ao fim de oito anos na vice-presidência -, entremeado por imagens de Neil Kinnock, o líder trabalhista britânico, a fazer o mesmo discurso. As palavras originais eram de Kinnock e Biden não ficou candidato por muito mais tempo. Dukakis pediu desculpas públicas, mas o mal estava feito. Talvez esta memória, e uma história pessoal demasiado dolorosa, ajudem a explicar por que Biden não arriscou uma candidatura presidencial.

Apesar destes exemplos de jogo político duro nos Estados Unidos, não há comparação possível com o atual estado de coisas. Restam, nestes tempos de fragilidade, os mecanismos de defesa da maior democracia do mundo. Vão funcionar, quanto mais não seja daqui por quatro anos.

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