Caixa Geral dos Segredos

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Para início de conversa é preciso dizer que ainda está por explicar a razão concreta para o anterior governo (PSD e CDS) ter escondido debaixo do tapete a necessidade de resolver o sistema financeiro. Andamos e vamos continuar a bancar os prejuízos da banca e a culpa não é deste governo de esquerda que chegou há uns meses, é dos banqueiros. A resolução deste problema, como de todos os outros, fica mais cara quanto mais tempo demorarmos a pegar o boi pelos cornos e, por isso, também há culpa dos políticos.

Fazer é melhor do que esconder, mas as soluções que o actual governo protagoniza também têm de ser sujeitas a escrutínio. É muito estranho ouvir na televisão o deputado socialista João Galamba recusar-se a esclarecer o PSD e o CDS sobre o que vai ser feito na Caixa Geral de Depósitos (CGD), alegando que esses partidos não fizeram nada para resolver o problema. É preciso que quem exerce o poder saiba que, quando a oposição pede esclarecimentos, é ao povo que a verdade é devida.

Já sabemos que a recapitalização foi autorizada na CGD, mas sabemos muito pouco sobre a reestruturação do banco público. Não é igual fechar um balcão em Fornos de Algodres ou em Madrid. Quantos vão fechar? O máximo que nos foi dito sobre esta matéria fez capa no Negócios, que entrevistou Margrethe Vestager e que nos garantiu estar prevista "uma mudança muito profunda para o banco". Não é simplesmente uma mudança, nem uma mudança profunda, é uma mudança muito profunda. Que os partidos da coligação, mais a comissão de trabalhadores, façam o jogo político de esperar para ver, pode ser compreensível. Exigir à oposição e a todo o povo português que alinhe na jogatana é pedir de mais. Se há um acordo já firmado entre o governo português e as instituições europeias, o que se exige é que de imediato ele seja apresentado a todos os portugueses que vão pagar a factura. Não gostam que a oposição faça perguntas, azar! Respondam directamente aos contribuintes/accionistas da CGD. O que vamos pagar? Para que serve o dinheiro que vamos gastar? Que banco público é que vamos ter?

A Caixa Geral dos Segredos que ninguém quer revelar, inviabilizando uma comissão de inquérito parlamentar que alegadamente poderia prejudicar o banco, ameaça continuar a ser um negócio de alguns que todos têm de pagar. É um negócio político, em que alguns julgam que correrá tanto melhor quanto maior for o segredo. A factura continua a ser em milhares de milhões. E, assim, já toda a gente perdeu a noção do quanto anda a pagar cada contribuinte.

Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.

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