A versão de Cavaco Silva ou a verdade alternativa

Um dos episódios mais graves na relação entre os palácios de São Bento e Belém foi o episódio das escutas. Noutro país alguém de topo tinha caído, por cá foi o assessor que foi enviado para o sótão. Inexplicavelmente, demo-nos por satisfeitos com o lixo varrido para debaixo do tapete. Se a notícia da suposta vigilância do governo ao Presidente fosse verdadeira, estaria em causa o regular funcionamento das instituições, e Belém, no lugar de plantar notícias nos jornais, teria de ter dissolvido a Assembleia da República, para fazer cair o governo. Se a trama, em plena campanha eleitoral, fosse urdida pelo Chefe do Estado, este teria de ter resignado ao cargo. Mas em Portugal nada é o que é. Não aconteceu nem uma nem outra.

O assunto foi agora retomado por Cavaco Silva nas memórias apressadas, com uma versão que não bate certo com o que aconteceu na altura e, menos ainda, com a versão que deste episódio deu o seu assessor de imprensa de então. No tempo em que vivemos, vale mais eu dizer que a versão de Cavaco não bate certo com o que foi dito do que o ex-presidente resumir tudo aos "factos rigorosos, tal como foram percecionados" por ele. A realidade percecionada por cada um, segundo as suas conveniências, não dos dá "factos rigorosos", dá-nos uma verdade alternativa.

Cavaco Silva já abandonou a ideia de que foi tudo montado pelo Partido Socialista e, agora, limita-se a dizer que o episódio foi aproveitado pelo PS. Ora aqui está uma verdade que não invalida outras verdades, a primeira das quais, como bem lembram os jornalistas do Público que o entrevistaram, é que a notícia nasceu no Palácio de Belém. Fernando Lima, ex-assessor de Cavaco, já tinha confirmado ser ele a fonte da notícia do jornal, cumprindo ordens superiores. E o que diz Cavaco sobre esta verdade? Que só o chefe da Casa Civil falava com ele e só ele tinha autonomia para falar em nome do Presidente. Cavaco Silva atira Nunes Liberato para a fogueira sabendo que o seu chefe da Casa Civil é de outra estirpe. Liberato é um senhor, gente de um calibre difícil de encontrar na política à portuguesa, jamais deixaria Cavaco ficar mal na fotografia. Lima foi capaz de cuspir na mão que lhe deu de comer, Liberato preferiria passar fome a ter de renegar aquilo em que acredita.

Mas Cavaco Silva vai mais longe, acusa o Público de ter estragado a "história", alegando que na notícia do jornal "o título não tinha nada que ver com o conteúdo". O ex-Presidente confirma o que pretende desmentir, acrescentando que o que o assessor disse, ele "próprio podia ter dito". E prossegue em direção ao abismo das verdades alternativas, acrescentando que, ao ler a notícia do Público, considerou que "se tratava de uma tentativa de criar um facto político". Na mouche, o jornal citando fontes de Belém estaria a trabalhar para o governo de Sócrates.

Os jornalistas estão atentos e perguntam-lhe: "Na comunicação que fez ao país a 29 de setembro, decidiu referir a possibilidade de interferências no sistema informático da Presidência? No fundo, ao fazer isso e ao dizer que tinha chamado responsáveis pela segurança, que tinha encontrado vulnerabilidades no sistema não estava a confirmar" a notícia? Cavaco responde que o fez por causa "do rol de notícias" sobre a matéria. Brilhante! Afinal, a inspiração de Donald Trump é bem capaz de ter sido Cavaco Silva. Plantam-se notícias, como as escutas que Obama terá feito a Trump, e cada um que pense o que quiser. A seguir alimenta-se a novela para agradar à claque.

Cavaco Silva é um político de grande mérito que as quatro maiorias conseguidas confirmam. Este seu livro, com a verdade alternativa que transforma perceções em "factos rigorosos", é um êxito de vendas. O legado político do ex-primeiro-ministro e ex-Presidente da República vai muito para além da prestação ou de ajustes de contas com que pretende reescrever a história. Ele rivaliza, à direita, com Soares; à esquerda, como os homens que mais influenciaram a vida política portuguesa no pós-democracia. Um e outro estão carregados de virtudes e de defeitos. Cavaco tem mais a ganhar se assumir uma postura de humildade, reconhecendo os seus erros, do que se persistir em presumir que a verdade é uma coisa que vive exclusivamente na sua cabeça e onde todos podem ir beber. Como Soares, à esquerda, também Cavaco não faz o pleno, à direita. Alguém que pense pela sua cabeça não pode ser nem cavaquista nem soarista o tempo todo.

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