A imagem de Marcelo Rebelo de Sousa na Praça do Município abraçado ao miúdo - que não cabe em si de contente por ter ao lado o Presidente da República - é o melhor retrato do tempo novo. Há aliás um momento em que de Marcelo só vemos o boné de homem do povo, submerso que está em pedidos de autógrafos e selfies. O novo Presidente, o dos afetos, é assim mesmo, uma estrela pop. Informal e avesso à rigidez do protocolo, quis como só ele podia querer e fazer, para mal dos pecados do corpo de segurança pessoal, chegar a pé à sua tomada de posse cumprimentando sem enfados todos os que da grei lhe cruzaram o caminho. Ao longo do dia foram inúmeras as provas de apreço e esperança que o povo comum, aquele que Tino de Rans simbolizava na última campanha presidencial, deposita no novo Presidente da República. Para a história ficará o desgosto daquela lisboeta que ao ver aproximar-se o carro com batedores saúda efusivamente o Presidente e, desgraçadamente, apercebe-se de que lá dentro segue Cavaco e não Marcelo. O que Marcelo traz de novo, além da mundividência, é esta capacidade de, sendo ele da elite lisboeta, não se ensaiar nada de falar de nós, para nós e como nós. Para ele, é igual falar com banqueiros ou com os velhos da batota no Jardim da Parada. Ele canta, ele dança, ele ri. Em síntese, Marcelo é o povo e é do povo, a quem visitou anos a fio pela televisão como se fosse lá de casa. E foi disso que falou na primeira vez como Presidente da República. Da necessidade de reconciliação e de sarar feridas, da urgência dos consensos e da inclusão, da defesa de valores sociais e de solidariedade com os desvalidos dos anos de crise de que ainda não saímos, da subordinação do poder económico ao poder político e da obrigação do Estado social, de que se proclama defensor intransigente, de proteger "aqueles que a mão invisível apagou, subalternizou e marginalizou" sem descurar as finanças sãs. Citou Torga e Lobo Antunes, alguns dos nossos melhores, para nos puxar pela autoestima e nos devolver a esperança. Coisa estranha esta a de ter um Presidente que fala com todos, de todos e para todos, mas que nem todos, por exclusivo preconceito ideológico e desconfianças impróprias de um dia como este, são capazes de aplaudir. Os tempos que aí vêm continuarão a ser difíceis e Marcelo vai ter de arregaçar as mangas. Mas isso o Presidente saberá fazer com a autoridade de quem se assume da "esquerda da direita", ou seja, contra a crispação e tão abrangente e inclusivo que só ficará de fora quem não quiser estar dentro. Resta saber se as palavras bonitas e as boas intenções de Marcelo resistem à realidade dura que temos pela frente em 2016 com um Orçamento minado pela desconfiança de Bruxelas para executar, um Retificativo quase inevitável, um programa de estabilidade para aprovar e muitas quadraturas do círculo para fazer. Haja esperança.