O presidente Júpiter

1 Há umas duas semanas, o ex--Presidente Cavaco Silva fez uma defesa do modelo de presidencialismo jupiteriano, indicando Emmanuel Macron como o exemplo a seguir em Portugal. Uns dias depois, soubemos que o ídolo do ex-Presidente Cavaco Silva, presidente de França desde o dia 14 de maio, já é, segundo várias sondagens, mais impopular do que o presidente Trump. Já segundo a comunicação social, ainda é mais grave. Porque o presidente Trump sempre vai tendo alguma imprensa e o canal de notícias da Fox. O presidente Macron leva de todos, da direita à esquerda. A mesma comunicação social que o levou ao Olimpo antes das eleições agora arrasa o pobre homem. E, ao contrário do presidente Trump, o presidente Macron ainda nem começou a governar. Foi precisamente o discurso em que anunciou a sua presidência jupiteriana, a 4 de julho, o ponto de inflexão. Depois disso, está em queda livre. É certo que ainda lhe faltam 56 meses para finalizar o primeiro mandato. E algum dia começará a governar. E, como o ex-Presidente Cavaco Silva bem sabe, não se pode ser impopular junto de todos, porque há sempre um eleitorado fiel (que sonha eternamente com a famosa maioria silenciosa que nunca aparece). Portanto, naturalmente, terá altos e baixos. Mas a presidência jupiteriana não parece um modelo apreciado na democracia francesa. Um pormenor que o ex-Presidente Cavaco Silva omitiu da sua reflexão.

2Significa a atual impopularidade da presidência jupiteriana outro mandato falhado? Era a questão que levantava o The New York Times há uns dias. Evidentemente, faltando 56 meses para fechar o ciclo, parece imprudente declará-lo desde já falhado. Mas convenhamos que todos os ciclos foram falhados desde Mitterrand (do ponto de vista do programa de governo que diziam querer implementar, claro). E Mitterrand deixou a presidência francesa em 1995. Podemos também acrescentar que todos os candidatos socialistas desde 1995 são apresentados na comunicação social portuguesa como salvadores da Europa. Infelizmente, ou perderam as eleições (Jospin em 1995 e 2002, Royal em 2007) ou ganharam eleições para rapidamente terem uma imensa impopularidade junto das esquerdas que neles votaram (Hollande em 2012). Portanto, estatisticamente, era razoável prever que Macron seria um Hollande II (como escrevi em abril, para grande tristeza de alguns amigos), rapidamente abandonado pelas esquerdas e pela comunicação social. E, ainda no mundo das probabilidades, neste momento parece mais prudente esperar outra presidência falhada do que a tal presidência bem-sucedida apregoada há uns curtos meses.

3 Se Macron conseguir ainda vencer a desfavorável distribuição de probabilidades, melhor para todos. Mas parece-me que se trata de uma dinâmica demasiado enraizada na sociedade francesa. Já tinha acontecido, em parte, com Hollande, mas foi agora de forma muito mais veemente com Macron. A França dividiu-se em duas. De um lado os antirreformistas, repartidos entre a Front National e a France Insoumise, nos extremos do sistema partidário, contrários a qualquer mudança estrutural por motivos obviamente distintos, mas não tão opostos (por isso, os eleitores flutuam entre os extremos de uma forma pouco consistente com o habitual modelo direita/esquerda). Do outro lado temos os reformistas. Divididos entre Hollande e Sarkozy em 2012, desta vez concentraram o voto em Macron. Contudo, Macron foi eleito com menos de 21 milhões de votos (sendo a primeira preferência de quase nove milhões na primeira volta), enquanto Hollande teve 18 milhões de votos (dez milhões na primeira volta) em 2012 e Sarkozy teve 19 milhões de votos (12 milhões na primeira volta) em 2007. Os números mostram bem o absoluto irrealismo de quem defendia a presidência jupiteriana como um marco de consenso e apoio esmagador na sociedade francesa.

4 Mas a concentração reformista de Macron é o cerne do desafio francês e, na minha ótica, a razão primordial do que já está a acontecer ao presidencialismo jupiteriano. É que dois grupos muito distintos fazem parte deste "reformismo". Um deles, admito mais pequeno (pequeníssimo em Portugal), defende as reformas estruturais que permitam à França aproximar-se da Alemanha e dos países mais competitivos do mundo. O outro, certamente maior (onde podemos contar quase todos os "macronistas" portugueses), pugna pelas reformas estruturais que ponham a França numa posição forte para forçar a Alemanha (e a União Europeia) a regressar a um alegado modelo de Estado social, mesmo que à custa de perdas de competitividade. Grosso modo, e sendo muito simplista, os primeiros são os "reformistas" de direita e os segundos são os "reformistas" de esquerda. Independentemente de quem tem razão e de que "reformas" são ou não possíveis (a vitória de Merkel pela quarta vez prejudica muito o sonho da França que obriga a Alemanha a mudar), uma coisa é bastante óbvia: os "reformistas" apenas podem concordar nas generalidades, mas dividem-se profundamente assim que começam a ser anunciadas as primeiras medidas. Macron resulta, pois, na minha opinião, desde o primeiro dia, de um enorme mal-entendido entre os dois grupos "reformistas" (ao contrário de Fillon, que era um "reformista" de direita, ou de Hollande, que era um "reformista" de esquerda). Se a minha análise estiver correta, poderemos assistir a 56 meses de uma guerra fratricida entre "reformistas". Que apenas reforçará ainda mais a posição da Alemanha na Europa (veremos se a União Europeia implementa alguma das propostas de Macron feitas há uns dias em Atenas). E que pode acabar com os "reformistas" em França, deixando o eleitorado em ponto de rebuçado para outras aventuras.

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