A orfandade da direita

Ninguém imagina os partidos DA esquerda jurarem que não são partidos DE esquerda. Mas os partidos DA direita insistem todos os dias que não são partidos DE direita. Assunção Cristas já confessou o seu centrismo, Passos Coelho afirmou recentemente que o PSD nunca foi um partido de direita. Quarenta anos depois do 25 de Abril, a fazer fé no que nos dizem as lideranças do PSD e do CDS, não há partidos de direita na Assembleia da República.

Uma possibilidade é que, simplesmente, não haja direita em Portugal. Ou havendo, seria apenas uma direita geométrica, um eleitorado que, declarando-se centrista ou social-democrata nos inquéritos de opinião, não se identifica com os partidos de e da esquerda. Mas, segundo o Portal de Opinião Pública (da Fundação Francisco Manuel dos Santos), o valor médio da orientação ideológica está ao centro (4,8 numa escala de 1/esquerda a 10/direita no final de 2012), ainda que a evolução tenha sido ligeiramente para a esquerda (5,5 em 1985). E está em linha com muitos países da Europa. O mito de os portugueses estarem mais à esquerda do que os seus parceiros europeus não tem grande fundamento nos inquéritos de opinião. Portanto, existe mesmo uma direita sociológica que, em conjunto com a tal direita geométrica, representa cerca de dois milhões de votos desde 1975.

Outra possibilidade será, pois, existindo essa direita sociológica, ela vota realmente em partidos que não são de direita. Neste caso, PSD e CDS são os partidos DA direita, mas não são partidos DE direita. Contudo, parece pouco provável que a direita sociológica ainda não tenha percebido o logro. Dificilmente pode andar enganada há quarenta anos.

Resta a terceira possibilidade. O PSD e o CDS são os partidos DA direita, são também partidos DE direita, mas têm um qualquer conjunto de complexos ideológicos que persistem há quarenta anos (é importante esclarecer que, pessoalmente, em todas as minhas intervenções públicas sempre me defini como sendo de direita, sem qualquer "centro" antes da palavra "direita", pelo que tenho alguma dificuldade em compreender tais complexos, mas lá que existem, existem). Logo após a Revolução, houve a necessidade de entrar no jogo da democracia com uma Constituição claramente de esquerda. A direita teve, pois, de se ajustar à linguagem e às regras que lhe foram impostas pela esquerda. Uma longa década de reabilitação (1974-1985). Que PSD/CDS tenham conseguido uma maioria parlamentar logo em 1979, apenas cinco depois do 25 de Abril, é simplesmente notável. Depois temos o cavaquismo. Anunciado como bernsteiniano, mas pragmático na politica, Cavaco usou os generosos fundos comunitários para fazer o óbvio (infraestruturas e mudança do tecido económico). O resto ficou pelo caminho: reformismo das instituições não houve. A direita gostou e deu-lhe dez anos.

Depois entrámos no longo caminho da decadência económica. Um caminho que alterou significativamente o equilíbrio eleitoral. Desde 1995, PSD/CDS conseguiram duas vezes uma maioria para governar e falharam outras cinco. Duas em sete. Desde 1995, PS foi sempre reeleito para governar um segundo mandato. PSD/CDS nunca foram. Ou seja, PSD/CDS só governam quando a esquerda apodrece no poder. E nunca conseguem manter a sua base eleitoral de apoio por mais de uma legislatura. São governo por tempo limitado nos tempos mortos da esquerda; tornaram-se, assim, uma espécie de suplente da esquerda.

Em 2002, PSD/CDS limitaram-se ao "país de tanga". Naturalmente, do seu governo 2002-2005 pouco ou nada ficou: ninguém recorda qualquer reforma relevante. E lá esperaram seis anos que o PS apodrecesse outra vez para voltarem ao poder em 2011. Começaram por aderir à ortodoxia monetarista alemã (que de liberal ou neoliberal pouco ou nada tem, mas é certa e profundamente de direita) imposta por Passos e Gaspar. Mas a "austeridade virtuosa" apenas durou dois anos. Com Gaspar longe, prevaleceu o pragmatismo irrevogável de Portas. Passou-se à "austeridade imposta pelos credores" e ao famoso modelo das exportações (seja lá o que isso for). Em resumo, PSD/CDS limitaram-se a fazer cortes orçamentais e ajustamentos atabalhoados onde a troika mandou, umas tantas mudanças aqui e ali, mas reformas institucionais nem por sombras (Estado, municípios, justiça, segurança social, regulação, etc.). Surpreendidos pela sua própria insuficiência eleitoral e prisioneiros de persistentes erros estratégicos, PSD/CDS ficaram outra vez na oposição. E não gostaram. Mas onde estão há 15 meses. Em queda acentuada nas sondagens. Sem programa, nem projeto. Apenas um enorme agitprop que vai disfarçando a sua maior e prolongada crise. E, nesta profunda crise que experimentam, voltaram a renegar a direita sociológica. Que assim continua órfã ao fim de 43 anos.

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