A Espanha mais ingrata e mal-educada

A Espanha continua a ser o assombro da Europa e do mundo. O ministro da Economia do meu país, Luis de Guindos, que está há quase dez meses em funções por causa da impossibilidade de formar governo, escreveu um livro - España amenazada (Espanha ameaçada) - em que relata como em 2012 estávamos à beira do colapso, apesar de muito poucos cidadãos terem tido consciência do perigo de falência. Quatro anos depois, crescemos quase o dobro da média da União Europeia e criamos 60% do emprego da zona. Em apenas dois anos, passámos de ser o grande problema da União e convertemo-nos no exemplo de como reverter a situação de forma diligente promovendo reformas estruturais determinantes no setor financeiro e no mercado laboral.

Mas talvez porque então não reparámos na ameaça, agora somos pouco generosos a reconhecer a mudança dramática da situação. É muito difícil assistir com paciência ao exercício diário de demagogia da oposição e dos sindicatos sobre a precariedade dos novos empregos, sobre a alegada exploração a cargo dos empresários ou sobre o facto evidente de que, às vezes, se trabalhem mais horas do que as contratadas. E ainda é mais insuportável para mim ouvir a demonstração de vitimização generalizada entre os cidadãos que tiveram a sorte de encontrar um emprego. Eu nunca perguntei pelas horas que figuram no meu contrato. Nem antes, quando trabalhava à peça, nem agora, que tenho uma posição mais cómoda. Deixava o jornal quando tudo estava acabado e bem fechado. E não me dei mal. O meu filho mais velho, que está há dois anos empregado, trabalha normalmente mais horas do que as contratadas e fá-lo com gosto. O que o preocupa é estar à altura do que lhe foi pedido. E espero que com esta mentalidade otimista lhe corra bem a vida.

Não há nenhum emprego precário. Todos podem ser a alavanca para prosperar, aprender e melhorar a qualificação, progredir com responsabilidade dentro da própria empresa, ou noutra, e obter um salário mais elevado. Nem eu nem o meu filho nos levantamos todas as manhãs dispostos a participar na dialética marxista entre capital e trabalho, mas sim dispostos a contribuir para o bem comum. Este consiste em que a nossa empresa triunfe e ganhe o máximo de dinheiro possível. Estamos convencidos de que será bom para nós. Mas neste país de parasitas, acomodados e mesquinhos em que a esquerda e os sindicatos transformaram Espanha, é normal que a primeira coisa que um recém-contratado peça, apesar de ser solteiro e viver com os pais, seja conhecer a política de conciliação da empresa que o acaba de contratar.

Às vezes, quando passeio pela enorme redação onde convivem numerosas publicações e trabalham muitos jornalistas, observo que um dos motivos recorrentes de conversa entre os meus colegas, muito mais jovens do que eu, são os dias de folga. Isto é algo que não acontecia na minha época. Na minha época, o trabalho era uma bênção, não um castigo. O que importava era levá-lo para a frente o mais dignamente possível. Um dos mantras do momento, desencadeado pela esquerda, é que esta última crise está a demonstrar, de maneira definitiva, o fracasso do capitalismo por uma questão inédita até à data: que os nossos filhos vão viver pior do que nós, os seus pais. Isto nunca aconteceu antes, dizem. Eu tenho a certeza de que isto não acontecerá porque a natureza humana tem inscrito o gene do progresso, mas também penso que o risco de que possa ocorrer não tem que ver com o capitalismo, mas com a hegemonia da esquerda no sistema educativo. É um facto que o interesse de muitos dos nossos jovens é trabalhar o menos possível para levar uma vida tranquila e desfrutar o melhor possível dos momentos de ócio com os amigos. Segundo o meu amigo Benito Arruñada, que é catedrático da Universidade Pompeu Fabra, com sede na Catalunha, esta deplorável atitude leva-os a escolher cursos e empregos em que investem menos do que é preciso para alcançar o nível de vida a que aspiram. E fazem-no porque não foram educados a adiar a gratificação, isto é, a sacrificar-se no início da sua vida laboral em prol de um futuro melhor. Pelo menos não na medida que exigem os empregos que lhes permitiriam manter o nível de vida dos seus pais.

A influência da esquerda no sistema educativo do meu país foi letal. Arruñada refere-se em concreto às falácias como a visão negativa de todo o castigo e competição; à necessidade de conter o esforço e educar no prazer; na marginalização do exercício da memória e do sacrifício; na ênfase de que a responsabilidade é principalmente social e, por isso, alheia ao indivíduo; à supressão do controlo regular e rigoroso sobre o rendimento dos alunos, assim como tantas outras coisas. Na última sexta-feira, para não ir mais longe, uma das associações de pais das escolas públicas fez um apelo ao boicote dos trabalhos de casa que impõem os professores aos seus filhos. Naturalmente, o que querem principalmente é desfrutar dos fins de semana e manter-se à margem da educação dos seus filhos, cuja responsabilidade entregam ao Estado. Assim é normal que as escolas públicas sejam as que têm pior rendimento académico e sejam o caminho mais direto para a indigência laboral.

Mas a culpa deste despropósito não é do sistema, mas dos próprios pais. A mentalidade construída desta maneira equivocada de entender a educação teve uma repercussão muito nociva sobre a atitude com que os nossos filhos enfrentam o seu primeiro emprego, as expectativas de futuro que têm e o seu comportamento não só no local de trabalho, mas na sociedade em geral. Como desprestigiámos o esforço e a competitividade, para fomentar o igualitarismo na recompensa, a capacidade dos nossos jovens para desenvolverem-se com sucesso no mundo ferozmente disputado que nos rodeia está seriamente diminuída.

Neste ano, vão ser criados quinhentos mil postos de trabalho na Espanha. Em 2015, foram outros tantos. Não há razão para ficarmos incomodados com este facto, exceto uma realmente obscena: que imbuídos das teses mais repugnantes da esquerda, há muitos compatriotas que ainda preferem viver do subsídio em vez de trabalhar pelo que consideram um salário menor, às vezes abaixo da ajuda estatal. A maioria dos partidos políticos do meu país, incluindo o que ainda governa em funções - que é de direita e é o único ligeiramente próximo das teses liberais que defendo -, estão convencidos de que a melhoria do mercado laboral passa por dar mais facilidades aos nossos jovens em vez de prepará-los para enfrentar, com as melhores capacidades possíveis, um mundo cheio de perigos mas também de oportunidades. A Espanha esteve gravemente ameaçada em 2012. Apesar da sua surpreendente recuperação, que o cidadão comum não aprecia, volta a estar agora, por causa do obstrucionismo político praticado pela esquerda, que impede a formação do governo que seria imprescindível para que esta máquina continue a funcionar, uma vez praticadas as reformas pertinentes. Dito isto, que é o mais perentório, a ameaça principal que enfrenta o meu país tem uma razão cultural. Estamos muito longe de preparar os nossos jovens para a aventura do risco criador de riqueza, para que aprendam a tolerar o fracasso - e o contemplem como uma oportunidade - para que desprezem a queixa e para que finalmente erradiquem do dicionário a palavra "direito" até substituí-la pela palavra "obrigação".

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