Povo de marinheiros e também de jesuítas

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Está prestes a estrear-se em Portugal o mais recente filme de Martin Scorsese. É dia 19. Já o vi e posso pedir-lhe que esqueça se lá fora está a ser um sucesso de bilheteiras ou se as críticas na imprensa estrangeira são boas ou não. Só os japoneses e os portugueses podem compreender verdadeiramente o que este Silêncio representa e de forma diferente para cada povo.

Para nós, portugueses que vivemos quatro séculos depois dos acontecimentos relatados no filme, a experiência é única, de certo ponto quase mística e isso não tem que ver com religiosidade: que tamanha fé e tamanha coragem tinham os jesuítas portugueses de Quinhentos e Seiscentos para viajarem até tão longe, desafiarem monarcas e outros soberanos estrangeiros, sofrerem as piores torturas, para converter outros povos ao catolicismo, tão difícil de pregar.

É impossível não nos identificarmos com Cristóvão Ferreira, a personagem interpretada por Liam Neeson, um padre que para salvar a vida - a própria e a dos cristãos convertidos à sua volta - pisa uma imagem de Cristo, renega a fé católica, adota vestuário e nome japoneses, até uma mulher também japonesa e passa o resto da vida a ajudar na perseguição a qualquer vestígio de crença.

Não é a primeira vez que o cinema fala dos jesuítas, basta lembrarmo-nos de A Missão, passado na América do Sul. E também não é raro os romancistas, sobretudo os que gostam de viajar no tempo, recorrerem a personagens saídas da Companhia de Jesus, fundada por Inácio de Loyola no início do século XVI. Recordo-me de Salman Rushdie a descrever em A Feiticeira de Florença a presença de jesuítas portugueses na corte de Akbar, o grande soberano da Índia, muçulmano mas aberto a todas as religiões. Mas este Silêncio, baseado no romance homónimo escrito por Shusaku Endo, um cristão japonês, recorda-nos quão importantes os jesuítas foram na expansão portuguesa, sobretudo no Oriente, onde por causa de Goa e de Macau mesmo os missionários espanhóis e italianos aprendiam português para pregar e obedeciam à coroa portuguesa, como Francisco Xavier e Matteo Ricci.

Temos Bartolomeu Dias, Pedro Álvares Cabral e Vasco da Gama como heróis nacionais e bem. Todos grandes navegadores, como também Fernão de Magalhães, português ao serviço de Espanha, e todos eles merecedores de admiração. Mas quando olhamos para a presença portuguesa no mundo é obrigatório notar as façanhas dos jesuítas, gente de profunda fé mas também bem preparada para a ciência. E grandes viajantes. António de Andrade foi o primeiro europeu a ir ao Tibete, mais ou menos na época em que Cristóvão Ferreira se tornava apóstata no Japão. Estêvão Cacella e João Cabral aventuraram-se nos Himalaias e chegaram ao Butão, onde ouviram falar do Xangri-lá, um reino mítico que entrou no nosso imaginário graças a romances e filmes. E que dizer dos jesuítas portugueses que nos séculos XVI e XVII andavam nas terras etíopes, alguns com planos militares para ajudar o monarca cristão contra o islão que passava por desviar o curso do Nilo para vergar o Egito.

Quem vir o filme, e for português, hesitará entre admirar a coragem de Cristóvão Ferreira e dos outros jesuítas e irritar-se com a sua teimosia, à beira do fundamentalismo religioso. Talvez o grau de fé de cada um tenha aí um papel especial. Mas sem dúvidas que os jesuítas, com os seus erros, fazem parte dos heróis de Portugal.

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