Nagasáqui, nosso amor

O diretor do Memorial da Paz afasta-se para me dar tranquilidade para uma oração, prece ou pensamento sobre as vítimas da bomba atómica lançada a 9 de agosto de 1945 sobre Nagasáqui. A Masanobu Chita não interessa se sou cristão, judeu, budista ou ateu. Aliás, a bomba americana também foi cega às crenças da cidade, de maioria xintoísta e budista como é regra no Japão, mas com uma minoria cristã que remonta ao século XVI e à chegada dos portugueses.


Aquele trágico 9 de agosto, três dias depois do bombardeamento de Hiroxima, era um domingo e a catedral de Uramaki estava cheia. Como a explosão se deu a 500 metros é fácil imaginar como a comunidade cristã contribuiu para os 75 mil mortos imediatos. Sabe-se que houve quem visse a sua fé vacilar, sobretudo nesta ilha de Kyushu, onde os chamados cristãos-escondidos enfrentaram dois séculos de perseguição entre a expulsão dos últimos portugueses em 1639 e a reabertura do Japão ao mundo, já na segunda metade do século XX. Mesmo longe, um escritor como Shusaku Endo, nascido em Tóquio, viu o seu catolicismo abalado. A sua obra revela essas dúvidas, em especial Silêncio, romance que o americano Martin Scorsese transformou em filme.

Silêncio está a ser agora exibido nos cinemas japoneses. Para quem é cristão a história do padre Ferreira e dos crentes japoneses forçados à apostasia é comovente. Conta-me o padre Renzo de Luca, argentino e jesuíta como o português Cristóvão Ferreira, que muitos saem da sala a chorar. Identificam-se com aquela narrativa de fé e de sofrimento, quando o xógun, figura na época mais poderosa até que o imperador, decidiu cortar todos os laços com o exterior para reforçar a unidade do Japão, recém saído de uma guerra civil que a espingarda introduzida pelos portugueses a partir de 1543 ajudou a acabar. Portugal e Espanha, no tempo dessa perseguição aos cristãos, partilhavam o rei, e os holandeses conseguiram convencer os japoneses de que os ibéricos tinham planos de conquistar o arquipélago com a ajuda do Papa.


Foi mínima a recompensa dos holandeses para tanta conspiração. Foram autorizados a permanecer em Dejima, ilha de 200 por 80 metros, junto a Nagasáqui, apenas para fazer comércio. Até a tal reabertura do Japão ao exterior esse foi o único ponto de contacto com o mundo e se hoje a cidade recorda a presença holandesa, e até tenta fazer de Dejima uma atração, não é comparável com o sentimento pelos portugueses.

Há admiração por termos introduzido a tecnologia ocidental e curiosidade por termos dado palavras à língua japonesa, garante-me o cônsul honorário de Portugal, Masatsugu Yasuda, que me recebe no seu escritório, onde existe uma fotografia da Sagres no porto de Nagasáqui. Dá-me exemplos de palavras como copo, sabão ou pão, que demos ao japonês. E de como fomos buscar-lhes catana, biombo e sacana, que aqui significa peixe.

Mesmo os budistas de Nagasáqui sabem da ligação a Portugal. Num templo que chegou a ser a Igreja dos Santos surge à entrada uma placa a lembrar Luís de Almeida, médico e padre. E num recanto do jardim é possível rezar a uma Nossa Senhora. Hoje, vivem uns 60 mil católicos no município de Nagasáqui. Explica porque há igrejas nas colinas.

Mas nada homenageia mais Portugal do que o bolo típico de Nagasáqui, o Castela. Sabe a pão-de-ló. A receita foi guardada pelos cristãos e hoje alimenta um negócio próspero. Compram os turistas para levar como recordação, comem os de cá porque é um dos doces mais apreciados. Quando souberam que era português na loja onde comprei algumas caixas fizeram logo uma festa. Senti-me como um amigo que não viam há muito. Os japoneses gostam de Portugal, e muitos aqui em Nagasáqui com paixão.

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