Isto não vai lá só com Tomahawks, senhor Trump!

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Há dois anos passei uns dias a bordo de um destroyer americano da classe dos que agora dispararam 59 mísseis contra uma base síria. Bastava olhar para as rampas de lançamento para ter a certeza do potencial de cada Tomahawk: tonelada e meia de alta tecnologia associada a uma capacidade destrutiva que só pode fazer tremer os inimigos da América.

Mas ninguém duvidava da supremacia militar dos Estados Unidos antes de estes mísseis Tomahawk serem disparados, muito menos Assad. Ou seja, a demonstração de força feita por Trump, justificada como retaliação pelo uso de armas químicas pelo regime sírio, só por si não acrescenta muito ao conflito que dura desde 2011.

A não ser que seja o princípio de algo que ainda não sabemos e que a nova administração aplicará como estratégia na Síria. Acontece, porém, que a guerra ali há muito que deixou de ser entre Assad e os rebeldes pró-democracia (alguma vez o foi?) e passou a ser uma sobreposição de guerras, onde além das comunidades locais estão envolvidas meia dúzia de potências. Exemplos: alauitas, xiitas e cristãos combatem por Assad os rebeldes tal como combatem o Estado Islâmico; os curdos e os drusos combatem o Estado Islâmico mas evitam o regime; a maioria dos sunitas até pode apoiar os rebeldes, e alguns mesmo o Estado Islâmico, mas sempre houve uma parte que preferiu não desafiar Assad, razão porque Aleppo tardou tanto a revoltar-se; o Hezbollah e as milícias iraquianas e iranianas combatem ao lado de Assad, às vezes atacadas por Israel, que não se intromete a não ser que se sinta ameaçado; os turcos apoiam os rebeldes, mas combatem o Estado Islâmico e os curdos; os guerrilheiros curdos atacam o Estado Islâmico com apoio americano e simpatia russa; os russos apoiam Assad mas negoceiam com a América e Israel rotas de voo, ao mesmo tempo que atacam o Estado Islâmico e pactuam com os turcos tréguas; os americanos, que há muito que armam os rebeldes e combatem ao lado dos russos os jihadistas, são aliados da Turquia mas apoiam os curdos; e não vou acrescentar que cordelinhos mexem as secretas jordana e sauditas.

À frente dos Estados Unidos há menos de cem dias, Trump tem de pensar antes de criticar Obama por ter deixado a guerra na Síria arrastar-se, sobretudo quando em 2013 traçou linhas vermelhas que deixou ser ultrapassadas. O antecessor herdou guerras mal resolvidas no Afeganistão e no Iraque e ajudou a criar uma terceira na Líbia. Por isso, teve receio de se envolver na Síria, sem ter um plano concreto e meios para o concretizar - e não falo de umas dúzias de Tomahawks.

O que a história do Médio Oriente ensina é que é fácil derrubar um ditador, mas é difícil criar uma democracia. Bush filho sabe-o bem, até porque as raízes do Estado Islâmico estão na forma como os Estados Unidos sanearam o regime de Saddam em 2003. Hostilizados pelos invasores americanos e perseguidos pelos novos governantes xiitas, os sunitas iraquianos deixaram de ser um bastião do laicismo para passar a dar combatentes ao califado que governa ainda parte do Iraque e da Síria. Na Líbia, o fim de Kadhafi em 2011 trouxe o caos e até a criação de governos concorrentes.

Na Síria, pois, por muito que Trump ameace, nenhuma solução será possível se não agradar pelo menos aos russos. Claro, também nenhum futuro existe se desagradar aos americanos. Talvez os 59 Tomahawks possam significar apenas que a condição básica americana volta a ser o afastamento de Assad e assim possa manter-se a possibilidade de uma saída geral aceitável para Putin, parceiro que Trump sabe não poder desprezar (avisou-o do ataque de ontem).

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