Coreias ou Coreia?

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Com a Coreia do Sul a prometer arrasar Pyongyang com mísseis balísticos caso sinta iminente um ataque pela Coreia do Norte, que há dias fez o quinto teste nuclear, o mundo volta a olhar para o paralelo 38 como a mais perigosa das fronteiras. Afinal, uma nova Guerra da Coreia, 63 anos após a primeira ter acabado sem qualquer acordo de paz, seria terrível não só para a Península como para a China e o Japão e até para os Estados Unidos e a Rússia, velhos patronos do Sul e do Norte. É de prever que também a economia mundial se ressentisse, já que a Coreia do Sul é a 11.ª potência e tem como vizinhos a segunda e a terceira.

O mais absurdo é que qualquer que fosse o resultado do conflito os coreanos seriam os perdedores, condenados a viver em países destruídos. Bem ou mal, a Coreia do Norte conseguiu reerguer-se das ruínas da guerra de 1950-1953; e de forma espetacular, a Coreia do Sul renasceu das cinzas no espaço de décadas.

Hoje o fosso de riqueza entre ambas deve-se apenas à natureza dos regimes, pois o povo é o mesmo, em termos de língua e cultura, e o território nortista até possui mais recursos, além de ter herdado no fim da Segunda Guerra Mundial a maior parte da infraestrutura industrial deixada pelos colonizadores japoneses. Durante algum tempo foi possível fazer paralelismos entre Norte e Sul: obediência a Moscovo versus obediência a Washington na Guerra Fria, ditaduras militares em ambos os casos, melhor desempenho da metade comunista até aos anos 1960, crescimento económico do Sul capitalista a partir dessa época. Mas hoje só por manifesta ignorância se poderá procurar analogias. E se há quem note que se Kim é filho e neto de ditadores, também a presidente sul-coreana é filha do general Park, que governou entre 1961 e 1979, na realidade o primeiro chefia uma república dinástica, enquanto a segunda lidera uma democracia e foi eleita mais de 30 anos depois da morte do pai.

Norte e Sul insistem na retórica da reunificação, mesmo que nos últimos anos tenham trocado a mesa das negociações por ameaças. Não é hipótese absurda, mesmo que esteja fora da agenda a médio prazo. No passado por várias vezes a nação coreana esteve dividida, mas isso não impediu que preservasse identidade bem distinta das da China e do Japão.

Ora, uma Coreia reunificada, em vez de se perder em tensões nucleares, seria candidata a colosso. Nos últimos Jogos Olímpicos, a Coreia do Sul ficou em oitavo no medalheiro, com nove ouros. Com os dois ouros norte-coreanos, subiria para sétimo. Imaginemos então como seria uma Coreia que aos 50 milhões de habitantes da Coreia do Sul somasse o engenho e a força de trabalho dos 25 milhões que vivem no Norte? No dia em que o nível de desenvolvimento dos dois lados do paralelo 38 se equilibrasse, essa nova Coreia saltaria posições na hierarquia das potências.

Este cenário de uma Coreia fortíssima pode não ser atraente para chineses e japoneses. Ou para russos e americanos. Mas seria certamente para todos melhor do que o clima de guerra que se vive na Ásia Oriental.

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