"Quando a Cristina Ferreira apareceu cheia de gafes ortográficas denotando uma cultura abaixo da média inspirava simpatia apesar de tudo. Depois foi vê-la evoluir e ter sucesso. O sucesso não me incomoda minimamente e assenta a quem o merece. Agora a postura dela irrita. Não consigo explicar porquê mas de repente até a voz dela me começou a irrtar. Olho para ela e vejo uma vaca a pastar no prado. Não consigo explicar a razão desta aversão súbita mas a verdade é que acontece. Provávelmente não serei o único." Ora diz a Margarida que "tenho que admitir que no mundo ocidental é complicado ser homem e ter que lidar com muitas mulheres parvinhas como esta Cristina. Com que então um rapazinho andar a oferecer flores e dar elogios é assédio?!? Que inveja. Eu agradeço este tipo de assédio", e o João acrescenta que "creio que há ai uns laivos de peneirinhas e de auto promoção que aliás nem precisas. tens bom aspecto, aliás denotas (não sei se só denotas) um certo ar de mulher meiguinha e querida", mas adverte "porém e sabendo eu que tu tens herpes ciclicamente ,por exemplo eu seria incapaz de me "entregar" a ti, muito menos de te assediar". A Olga é menos compreensiva: "n tinhas marido???? aquele bonzão c cara de brocchhe. Garotinha" " so agora o dizes???vai po caralh. querias subir não era???". Segundo a Ana, Cristina Ferreira é "provinciana, pirosa e com um cerebrozito de pardal (a voz é de papagaio esganiçado), por isso tem a mania que é gente, coitadita!". Alberto não duvida: "A Critina Ferreira e como outra pessoa qualquer, não liga a meios para atijire objetivos, faz tudo para ser famosa, depois vem dizer que foi vitima eu acho e que estas gajas fazem-se vitimas.por mim ela e uma mulher oferçida"..Como estes, são centenas, a que se juntam uma série de comentários homofóbicos sobre Manuel Luís Goucha, a propósito deste mesmo assunto. Uma vez escrevi, ou li, ou as duas coisas, e já não sei por que ordem, que o inferno deve ser assim como viver numa caixa de comentários de um jornal. A revelação de Cristina Ferreira de ter sido vítima de assédio, e o espetáculo que se seguiu nas caixas de comentários, é um bom exemplo do inferno na terra..A boçalidade das caixas de comentários não permite naturalmente ver o que pensa o país inteiro, ou mesmo a maioria do país (as pessoas à sua volta comentam nas caixas de comentários?), mas permite perceber o que pensam algumas pessoas que têm agora um meio de partilhar o que lhes vai na alma. E isso basta para ser assustador. Mas também assusta os que pensam isso e não o escrevem (por cada um que comenta, quantos acenam com a cabeça?). E há ainda os que nem se apercebem que pensam: porque há a misoginia alarve de Trump e de parte dos seus votantes, mas também há a misoginia sofisticada de alguns dos que não votaram em Hillary, a sobranceria moral de parte dos apoiantes de Sanders, uma misoginia insidiosa que castiga sempre mais uma mulher por ser mulher, que lhe aumenta as falhas, que lhe perdoa menos..E por falar em perdão, é sempre bom voltar à história de Lindy West. Lindy é uma escritora norte-americana, feminista, que há uns anos tomou partido na discussão das piadas sobre violações - é admissível fazer humor com violações? Lindy acha que não (não vou agora entrar na questão complicada dos limites do humor e da liberdade de sátira e de expressão). Claro que desde então tem sido objeto de uma legião de haters cada vez mais dedicada. O ataque mais comum é dizerem-lhe que ela é tão gorda que ninguém a quereria violar (Lindy é uma giraça orgulhosamente gordinha). Mas em 2013 começou a ser perseguida por uma conta de Twitter em nome do pai que tinha morrido há pouco, e com uma fotografia do senhor. O pai dizia-se envergonhado da filha e enviava mensagens de ódio. Lindy está habituada a ódio na internet (Lindy, uma ateísta moderada, recebe ódio até dos ateístas fanáticos), mas no caso da conta em nome do pai, em vez de ignorar, ou confrontar, decidiu escrever publicamente sobre o assunto. No dia seguinte, recebeu um pedido de desculpas do agressor, que lhe dizia ter entretanto encerrado a conta. Mas não ficou por aí. Dois anos depois quis perceber o que poderia levar uma pessoa a dizer, escrever, fazer aquilo. Num programa de rádio falaram durante mais de duas horas. Ele explicou que ela o irritava porque parecia gostar de si própria, ser feliz, e ele não, e que isso o fazia sentir mal. Pois.