Há um lugar-comum que promove o espetáculo cinematográfico como misto de artifício e pompa vivido na sala escura. O lugar-comum é verdadeiro (até porque ver filmes em ecrãs de computador faz parte do nosso mais triste masoquismo cultural), mas francamente insuficiente. Um grande filme não se define apenas pelo seu grau de surpresa - um grande filme entranha-se na consciência, avisando-nos de que temos um inconsciente onde se travam as guerras de uma cruel economia afetiva e simbólica..Animais Noturnos é um desses grandes filmes. E tanto mais quanto a arte narrativa de Tom Ford nos projeta no labirinto da escrita, a mais poderosa linguagem que os humanos inventaram (muito antes de se lembrarem de ligar uma imagem com outra, chamando ao evento qualquer coisa como "cinematógrafo")..Repare-se na transparência dramática de Susan (Amy Adams, a justificar dois Óscares, um pela presença, outro pela abstração). Quando ela começa a ler o romance do ex-marido Edward (Jake Gyllenhaal), assistimos a quê? Acontece que a escrita se vai insinuando como "coisa" que desafia a evidência do corpo e a nitidez do pensamento: Susan descobre que a escrita, uma palavra a seguir a outra, uma frase enredada na frase seguinte, existe como espelho glorioso do desejo - e também do seu pressentimento da morte..Se Susan nos vai parecendo tão desamparada, isso decorre de o facto de ela ser também um espelho, neste caso da insensatez do espectador. Porque o espectador, mesmo avisado das convulsões insolúveis de cada história que se conta, cai no erro de desejar um final, se não feliz, pelo menos redentor. No caso de Animais Noturnos, sentimos que o filme decide não acabar, preferindo insinuar-se como assombramento privado - resta saber se somos dignos do medo que isso faz.