Anomalia civilizacional

Publicado a
Atualizado a

Aos 87 anos, o professor António Gentil Martins é um dos mais respeitados e influentes cirurgiões em actividade. Por isso é insólito a Ordem dos Médicos abrir um inquérito ao clínico que foi seu bastonário de 1977 a 1986. Que grave transgressão cometeu? Existiu negligência terapêutica ou infracção deontológica? Morreu alguém?

A questão surgiu, não na prática, mas numa entrevista. A longa conversa de fundo, na revista E do Expresso do passado sábado está cheia de valiosos ensinamentos e experiências, onde todos os médicos podem aprender muito. Mas isso ficou ofuscado por duas passagens consideradas polémicas.

No texto o professor afirma-se católico praticante e expressa a bem conhecida posição da Igreja (coincidente com múltiplas instituições e inúmeras pessoas) acerca da vida e casamento. Afirma-se "absolutamente contra" a eutanásia e o suicídio assistido, "totalmente contra" o aborto, o casamento e a adoção de crianças por homossexuais. Além disso, reafirma a sua luta contra o Serviço Nacional de Saúde, por anular a liberdade do doente, e o uso de tratamentos pelo Google. Mas nada disto gerou alarido pois, pelos vistos, já são opiniões pacíficas.

O debate foi incendiado pela reacção à situação de "um homem solteiro ter filhos recorrendo a uma barriga de aluguer, como alegadamente foi o caso de Cristiano Ronaldo". O entrevistado respondeu: "Considero um crime grave. É degradante, uma tristeza. O Ronaldo é um excelente atleta, tem imenso mérito, mas é um estupor moral, não pode ser exemplo para ninguém. Toda a criança tem direito a ter mãe." O segundo aspecto foram as afirmações: "Não vou tratar mal uma pessoa porque é homossexual, mas não aceito promovê-la. Se me perguntam se é correto? Acho que não. É uma anomalia, é um desvio da personalidade. Como os sadomasoquistas ou as pessoas que se mutilam."

Se o professor Gentil Martins tivesse dito que a cegueira é uma anomalia, ninguém pensaria em fazer queixa na Ordem ou diria existir um ataque à dignidade dos cegos. Se o professor Gentil Martins tivesse afirmado que a pedofilia é uma anomalia, não teria havido polémica nem se consideraria falta de respeito aos pedófilos. Mas, pelos vistos, não é possível um médico considerar a homossexualidade uma anomalia, semelhante ao sadomasoquismo ou à mutilação, sem que a Ordem fique enxofrada. Pelo contrário, por causa disto, é até possível despejar todo o tipo de insultos e agravos sobre um dos seus mais eminentes membros, sem que isso pareça incomodar a Ordem dos Médicos.

A vasta maioria dos cidadãos portugueses julga viver num país democrático, livre e civilizado. Pelos vistos, isso não impede que, em certos assuntos, as instituições mais respeitáveis se oponham a uma conversa cordata. Nesses temas, a intelectualidade portuguesa vive acossada por esbirros do pensamento, alguns até com assento parlamentar na bancada da maioria, que usam todos os meios legais e mediáticos para silenciar quem desafia a opinião única. Nos temas da vida e do casamento podem usar-se como métodos de diálogo a intimidação, a ameaça, a reprimenda e a punição, sem que a democracia se perturbe.

Os autonomeados censores usam dois truques para impor a sua ditadura ao país livre. O primeiro é tratar avaliações éticas como verdades científicas. Aquilo que eles pensam é alegadamente indiscutível, imposto como teorema demonstrado. O segundo é mascarar a sua posição intransigente como defesa da liberdade, da igualdade e da dignidade de certos cidadãos, acusando de intolerância e discriminação as posições que não lhes agradam. Existe, sem dúvida, o crime grave de homofobia, negando aos homossexuais os seus direitos humanos e civis. Mas isso não implica que todos tenham de concordar com a prática da homossexualidade, habilitando--se a acusações de xenofobia por a criticar. O professor Gentil Martins afirmou explicitamente tratar os homossexuais como qualquer pessoa e até atribui "imenso mérito" a Cristiano Ronaldo. Limitou--se a discordar das suas opções éticas, e considerou o futebolista mal-educado. Já não se pode dizer isto em Portugal sem arriscar inquéritos deontológicos?

Os esforços para passar a homossexualidade por opção banal e a apatia complacente que rodeou a decisão de encomendar filhos no mercado já estavam a tornar-se asfixiantes. Agora, graças a Gentil Martins, foi expressa uma opinião comum e o melhor futebolista do mundo teve uma educação de luxo. Isso só pode ser bom.

Nos embates políticos, culturais e económicos são habituais expressões arrebatadas e contundentes. Isso pode ser lamentável, mas é sinal do saudável e vigoroso debate intelectual. Mas existem áreas onde alguns o querem expulsar. As principais vítimas deste clima irrespirável de intimidação são, evidentemente, os temas da homossexualidade, da maternidade de substituição e afins, que deixam de poder ser discutidos de forma civilizada, devido ao fundamentalismo intolerante de alguns fanáticos.

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt