O mundo vive momentos de grande perplexidade, da política à economia, passando pela paz e valores. Os problemas são inúmeros e assustadores, mas todos manifestam um vício mais profundo da sociedade ocidental, a ambiguidade face à ordem..Toda a existência depende essencialmente de harmonia e equilíbrio. Qualquer organismo apenas sobrevive enquanto mantiver a proporção entre os seus elementos. Também na vida pessoal, e ainda mais na sociedade, o respeito por lógicas e normas é condição fundamental de subsistência. Isso é verdade hoje, como sempre, mas a cultura contemporânea experimenta uma grande perplexidade nas suas relações com a própria noção de ordem..A modernidade nasceu da rejeição da estrutura fortemente hierárquica e rígida do Antigo Regime. Isso, em si, não constitui problema, porque a generalidade das ordens, incluindo a do Antigo Regime, surgiram de revoluções. Todas as civilizações tendem a corromper-se, precisando de renovação ou substituição. Os novos sistemas, derrubando os antecessores, anseiam por definir a sua ordem. Os bárbaros, devastando Roma, adoptaram o sistema romano, como cada uma das sucessivas dinastias de imperadores. O Renascimento, abominando o medievalismo considerado decadente, invocava, no seu próprio nome, a recuperação de uma ordem antiga..Como tinha de ser, a mesma dinâmica foi seguida na fundação da modernidade, só que desta vez falhou. Na Revolução Francesa, protótipo das demais, a estrutura pretendida pelos girondinos foi destruída pelos jacobinos, por sua vez vencidos por Napoleão, que também não durou muito; repúblicas e restaurações, sempre frágeis, sucedem-se desde então. No campo da filosofia, as tentativas de Hume, Kant e outros para substituir o sistema de São Tomás de Aquino, acabou, através de Hegel, nas terríveis ordens de Marx e Nietzsche..A razão destes e outros falhanços não é fortuita, pois resulta de uma opção mais profunda de que estas soluções participavam. Em todas as outras épocas e culturas, mesmo as mais cruéis e turbulentas, havia sempre uma ordem transcendente que permanecia acima da conjuntura. Em algumas civilizações isso era explícito, como nas visões confucionista, taoista, budista, judaica, cristã, muçulmana, entre outras. Mas até no confuso panteão das mitologias a ordem persistia para lá e por dentro da barafunda humana e divina. A modernidade, nascente no século XVIII, tinha igualmente uma doutrina fundante, mas ela prescindia da transcendência, para se basear na ciência. O homem contemporâneo, mesmo quando se mantém religioso, considera as fés contingentes e opinativas. Nos dias que correm existe apenas um absoluto invocável nos debates culturais: a investigação sistemática..À primeira vista essa ordem é mais próxima e eficaz do que as anteriores. Só que a divindade profana mostrou-se caprichosa. O sistema absoluto de Newton, credo original, teve de ser substituído pelo de Einstein, arauto da relatividade; mas nem aí pudemos repousar, porque a mecânica quântica desafia as mais elementares regras da sensatez. Na Biologia, a situação é ainda pior, pois o cânone indiscutível baseia-se na luta caótica pela sobrevivência do mais apto, a desordem darwiniana. O resultado é que, pela primeira vez na história, o homem contemporâneo vive num universo vazio, impiedoso, hostil, baseado num fundamento indefinido, aleatório, vago. O horizonte, apesar de todos os esforços heróicos, só pode ser o tumulto ou o vácuo..Claro que estas ideologias não conseguem afogar a inelutável ânsia humana por ordem, limitando-se a gerar patologias. A mais extrema, de anarquistas e pós-modernos, consiste no explícito desprezo pela ordem, qualquer ordem, tomada como tacanha, asfixiante, opressora, preferindo adorar a rebeldia, a insurreição, o caos; boa parte da arte contemporânea envereda por esta via. A segunda distorção ama a ordem, mas, face à desordem considerada triunfante no mundo, alia-se com ela, por medo ou táctica; esta é a linha de corruptos e terroristas. O terceiro vício, de burgueses e comodistas, desiste da ordem global, considerada perdida, recuando para um cantinho isolado, construindo aí um oásis de ordem. Não é difícil identificar estas posições, e muitas das suas variantes e combinações, nos acontecimentos e orientações políticas dos últimos meses. O resultado de todos é, porém, que abandonando a ordem global, reina necessariamente o caos ou, pior, o nada..A única posição revolucionária hoje é proclamar o domínio na realidade de uma ordem subjacente. Mundo, natureza, humanidade, tal como sociedade, família e vida pessoal, são devedores de uma harmonia irredutível e indispensável. Esta não se confunde com qualquer obediência doutrinal, regime político ou sistema socioeconómico, porque é global, profunda, infinita, permanente. Mas qualquer doutrina, regime ou sistema só sobrevive se participar na ordem que lhe é anterior e superior. Sem essa fé não existe esperança.