Se não tens uma bomba ou uma arma de fogo, usa uma faca, um carro, uma pedra - o que tiveres à mão, aconselharam os cobardes que observam os estragos que ordenam a uma distância segura. E então os ataques sucederam-se, simples e letais, sem controlo possível. O potencial de perigo a multiplicar-se em cada esquina e a cada segundo. O número de vítimas a subir consistentemente, numa contagem obscura, independentemente de o nível de alerta estar mais alto do que nunca..Imprevisibilidade é a maior vantagem destes cobardes que atacam em nome de ideais que nunca o serão - apenas sede de sangue, de vingança contra aqueles que não são iguais a eles, que insistem em viver. Apenas vontade de amordaçar direitos e formas de vida distintas pelo simples prazer da sangria, de gerar medo ou apenas por insanidade sanguinolenta justificada com uma causa abjeta..É assim que funciona: um louco, um desesperado, um par de assassinos desfere um golpe. Só porque sim. Por ser desprovido de valores, de ética, de juízo. Um grupo terrorista reivindica-o - pouco importa se alguma vez houve contacto entre essa organização e o novo lobo solitário a agir em seu nome. É uma oportunidade que esse grupo criminoso nunca perderá, fazer seu mais um ataque, mostrar-se poderoso, capaz de atacar de dentro apesar de supostamente estar distante. E enobrece essa nova besta com razões que nunca existiram: lutar contra o deboche e os pecados da sociedade ocidental. Pecados? Que há de pior do que matar? Qualquer justiça, qualquer religião, qualquer verdadeiro Estado condena esse ato acima de todos os outros. Que coragem existe em atirar um camião contra uma multidão que se passeia, em rebentar uma bomba entre crianças, em esfaquear quem tem o azar de estar em determinado sítio em determinada hora? Não será pior do que acontece diariamente na Síria, no Afeganistão, na Somália, no Iraque. Mas nunca um mal servirá para justificar ou desvalorizar outro mal..Este grupo de bandidos que se esconde entre nós, que vive aqui ao lado com todos os confortos da mesma sociedade ocidental que critica e condena, não só utiliza a religião para justificar os seus atos como pretende que se crie um clima de verdadeiro terror, de raiva, de insanidade. Que se duvide do vizinho, que se tema o colega, que se desconfie de quem se senta ao nosso lado no café. E ataca com mais força precisamente nas sociedades que melhor receberam aqueles a quem chamam soldados e as suas famílias..Vencer esta guerra cobarde só será possível mantendo os valores e os princípios europeus mais vivos do que nunca. É verdade que sim. Mas é igualmente essencial tomar medidas que passam tanto pela solidariedade para com as vítimas como pela partilha de informação e de meios entre Estados. A altura de falar, de discutir, de ponderar e de lamentar já se foi há muito. Não se pode adiar mais o momento de agir..A Europa tem de se mobilizar, de falar a uma só voz e andar toda junta, no mesmo sentido - e não continuar a rezar por um cantinho onde nada de pior aconteça. Tem de esquecer por uns tempos o brexit, as finanças, os amuos e os temas mesquinhos que separam países do Norte e do Sul e unir-se à volta de algo muito mais importante: a segurança, que é o único meio de garantir que amanhã continuará a haver Europa.