Os filhos deviam ajudar-nos a olhar para o mundo como deve ser: por cima do muro. Antes de os termos vivemos o dia--a-dia a preocuparmo-nos com a nossa vida e a projetar o nosso futuro. O mundo é mais pequeno e arrumadinho. Temos menos sono, além de mais dinheiro, mais saúde, mais tempo. É excelente, portanto. Quando fazemos escolhas, as únicas variáveis somos nós e os chamados "os meus objetivos" que nos antigos filofax tinham um separador próprio. Depois tudo muda. Quando temos filhos, o mundo aumenta como se nos tivessem posto uns binóculos à frente e o futuro é uma espécie de filme de ficção científica. Hoje estou muito mais bem preparada para escrever "2100 Odisseia no Espaço" do que há uns anos. Os nossos objetivos passam a um: como preparar os nossos filhos para o futuro. Ou, numa versão mais ambiciosa, como melhorar o mundo para os nossos filhos. É quando gripamos. O motor começa aos soluços e chegamos rapidamente à conclusão de que o melhor mesmo é ir ao cinema e voltar a pensar no assunto amanhã..Até que nos aparecem socialistas a liderar. E voltamos ao filofax. Os meus filhos cresceram com socialistas a governar. Primeiro Sócrates, interrompido pela troika, e agora com socialistas e comunistas. Ora, os socialistas têm a particularidade de tramar o futuro e com ele a vida dos nossos filhos. É assim como aquela gente que vai ao cinema e deixa o chão inundado de pipocas. Cada vez que um socialista governa, o passivo da conta dos meus filhos aumenta: eles ainda não sabem o que é uma conta ordenado, mas já estão endividados até ao pescoço. Educar para pagar a dívida pública é o primeiro desafio..O segundo é mais sério: prepará-los, principalmente as filhas, para a banalização do sexo, a indiferença do género e a discriminação amoral. Das telenovelas à escola, passando pelas redes sociais e a respetiva devassidão da privacidade, o desafio é monstruoso e requer criatividade. Ainda para mais quando do outro lado está um Estado que quer coeducar comigo..No meio disto ainda temos de lidar com um mundo perigoso e imprevisível. No mundo dos nossos filhos não haverá uma Europa como a nossa, uma economia parecida ou desafios conhecidos. E o pior é que não fazemos ideia de como vai ser. Sabemos apenas que esta é uma geração que exige proteção, satisfação imediata dos desejos, adversa aos sacrifícios e exigente na satisfação de necessidades que se vão multiplicando. Quando o mundo mudar, terão eles algum espaço para encaixar altruísmo, generosidade e espírito de sacrifício? Pensando melhor, mais vale esquecer o filofax. Vou ao cinema.