O círculo vicioso da natalidade

A natalidade em Portugal é baixa porque a natalidade em Portugal é baixa. Explico. Se a natalidade fosse alta e as famílias tivessem mais de um filho e meio, tudo estaria estruturado de forma a que fosse mais fácil ter muitos filhos. Não sendo, é difícil. Pior: não é um problema. Não é preciso estruturar a sociedade porque não há famílias que o exijam, não é uma necessidade real. A necessidade é hipotética e futura, é a criação de condições para se ter filhos, e não concreta, uma resposta efetiva às necessidades das famílias com mais de dois filhos. Como ninguém os tem, ninguém estranha. Imaginem uma manifestação de famílias com mais de três filhos que enchesse a Avenida da Liberdade a exigir condições para conciliar a vida familiar com a profissional impossível a quem tem mais de três filhos, a exigir que o governo tomasse medidas para intervir no mercado imobiliário de forma que os mais de T3 não estivessem todos nas mãos dos chineses, a gritar pelo direito de os pais não terem de fazer trabalhos de casa com os filhos porque teriam de se despedir ou não fazer o jantar, a reclamar por uma legislação em que fosse legal caber a família toda num carro de cinco lugares. Não imaginam. Imaginem que estas famílias fariam a diferença nos resultados eleitorais, o que até obrigaria o BE a ter discursos em prol das famílias numerosas. Imaginem uma campanha do BE nestes termos. Impossível. Impossível porque não é preciso, porque estas famílias não fazem a diferença. Uma manifestação destas não encheria um quinto do Marquês de Pombal.

Por isso, estabelecer como prioritárias as políticas da natalidade é quase tão popular quanto nomear como fundamentais políticas sobre o tamanho dos pacotes de açúcar. A natalidade é um tema fofinho, uma boa conversa para um jantar, uma boa causa. Mas é abstrata. Ao contrário das discussões sobre greves de médicos ou de professores onde há sempre um primo na classe para apontar como exemplo, numa discussão sobre natalidade não há exemplos. Não há primos que se viram do avesso para levar os filhos à creche ou que desistiram dos empregos por causa do número de filhos. Se fosse um tema real, seria o próprio Mário Nogueira a sair à rua para exigir uma escola pública amiga da família. Assim, quem tem mais de dois filhos resta-lhes viver segundo as regras de uma sociedade onde não há filhos. Como quebrar o ciclo? Da maneira mais dolorosa: ter filhos e encher a Avenida da Liberdade. Ou isso ou nomear António Costa como babysitter do regime. Se se pedir com jeitinho, pode ser que funcione.

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