Cuecas sujas no cesto

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Tendo em conta que mais de metade do mundo deseja para 2017 paz no mundo, que Trump tropece numas escadas rolantes, que Medina caia num dos buracos de Lisboa e que os funcionários públicos sejam aumentados 50 por cento, os meus desejos para 2017 são mais simples e pouco ambiciosos. Apesar de igualmente difíceis de alcançar. O primeiro é que os meus filhos comecem a deitar as cuecas e as meias dentro do cesto da roupa suja e não no chão mesmo ao lado do cesto da roupa suja. Parece simples mas não é. Outro, que me fazia jeito, é que gritassem e discutissem menos, que começassem a gostar tanto de sossego quanto eu. Isso e que passem a ter apego a alguma arrumação: nada de especial, apenas que nunca mais deixassem pacotes de iogurtes vazios debaixo dos sofás ou caroços de peras em cima das mesas. Seria excelente. Outra ambição de Ano Novo, que confesso ser mais utópica, é que em 2017 fizessem os trabalhos de casa sem ser sob coação e ameaças à integridade física. Adorava receber e-mails dos professores do tipo: "O seu filho faz sempre os trabalhos de casa, traz sempre o material todo e não distrai os colegas." Um e-mail destes de vez em quando enchia-me as medidas para 2017. Por outro lado, desejo do fundo do coração não passar mais tempo no carro do que os anos de vida do meu filho mais novo. São anos e anos atrás do volante sem chegar a lado nenhum. Sou uma mãe Uber e ser uma mãe Uber é uma atividade de desgaste rápido. Apesar de não ter taxistas à perna, ninguém me paga, chego atrasada a todo o lado e não tenho a sorte de ser elogiada numa app. Pelo contrário, é só queixas pelos meus atrasos e tenho o carro sempre sujo. Por fim, a geringonça. Espero que a geringonça governe o ano todo. Que não deixe nada por fazer para que não fique uma dúvida na cabeça de um único eleitor de que a geringonça é a pior coisa que aconteceu a Portugal depois do PREC. Se nada disto for possível, gostava de ter uma selfie com o Presidente da República. Era só. Seria uma grande infelicidade que 2017 acabasse deixando-me como a única pessoa viva sem uma selfie com o Presidente da República. Isso e as cuecas dentro do cesto.

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