Macron, o grande quê?

Enquanto andava tudo chocado com o comentário de Donald Trump sobre Brigitte Macron ("está em grande forma"), aconteceu uma visita oficial do presidente americano mais detestado de sempre a França, por convite do presidente francês mais não se sabe o quê de sempre. Isto, é importante. Aquilo, é um detalhe.
Apesar de tudo o que se possa pensar e dizer sobre Trump, o presidente americano sabe que precisa de ter com quem conversar na Europa. Theresa May, a aliada natural, é uma figura derrotada no Reino Unido e sem influência no continente. Merkel, não disfarça o quanto o presidente americano a incomoda e o quanto se considera a líder do mundo livre (como diziam os títulos de alguns jornais alemães nas vésperas da cimeira do G 20). Sobra Macron, já que o resto, incluindo Itália, não existe.
Macron é ambicioso. Muito. Só assim se passa de ministro da Economia a presidente da República em poucos meses e antes dos 40 anos. É politicamente corajoso. Tanto que manteve o seu discurso europeísta quando o que é popular é culpar Bruxelas, e é assumidamente liberal num país tradicionalmente estatista. Ao escolher os liberais europeus para sua família política vai ser o partido mais importante daquele grupo e alterar o equilíbrio partidário do Conselho Europeu. Quando confrontado pelo chefe de Estado-Maior por causa do orçamento, foi claro e disse: quem manda sou eu. E, viu-se agora, tem ambições internacionais. Ou, mais precisamente, quer fazer o que os presidentes franceses dizem sempre que farão: repor a França no centro da política internacional. Convidar Trump foi um gesto que só um líder pode ter.
Se Macron for o que parece que é - um político que responde ao populismo dizendo a verdade, que tem visão política e uma ideia clara do que quer para França e para a Europa - tanto os franceses como os europeus só têm a ganhar. Mas, e se não for o que parece? Ou se o que parece for outra coisa? Ambicioso, sim, mas desmesuradamente. Liberal, sim, mas só na economia e nos costumes. De resto, tão fascinado com o poder do Estado como o mais estatista dos presidentes. E tão disponível para o culto da personalidade que não hesita em fazer um partido à sua medida (e com as suas iniciais). Não é impossível que o verdadeiro Macron seja também isso. É o próprio que, sem pudor, diz querer ser um presidente Júpiter (o deus rei dos deuses), por oposição ao presidente normal, como era o falhado Hollande. A diferença entre usar o poder e abusar dele é enorme, mas a fronteira é estreita.

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