Centeno, agora, eu punha-o ministro da Gramática

Não sei se deram conta mas a crise financeira mundial já vai para dez anos. É muito ano embebido em défices (números), consumo público (números), taxa de desemprego (números)... Aturdo com tantos algarismos e com aquela mania da vírgula entre eles para fingir exatidão. Pergunto: quando reavo o tempo perdido a comparar as centésimas campeãs do PIB de 1989 e de 2016?

Se eles, os números, tiveram direito à picuinha e aos cuidados intensivos, porque não vamos agora combater os verbos defectivos? Também eles, como o nome indica, com defeitos, como a nossa economia. Mas, ao contrário desta, sem esforços nem do governo nem da iniciativa privada para os resolver. Não entendo porque ainda há verbos mancos, com tempos para uns (para ele, nós e vós) e não para mim. Pois eu abulo essa mania, como vós abolis, sei lá, o direito de me reformar aos 50 anos. Há vida para lá do défice da balança de pagamentos; e há também verbos com défices que deveriam acabar.

Para as maleitas dos números há um Ministério da Economia e outro das Finanças - mas não há nenhum Ministério da Gramática. Como estamos formatados para as coisas das quantias, deixem-me tentar explicar o drama dos verbos defectivos com um exemplo que o Centeno domina. Um verbo defectivo é como aquele que me impede, se caio em bancarrota, de dizer: "Eu falo." Já dizer "nós falimos" ou "vós falis", posso. Quer dizer, nunca assumo a minha culpa na falência. Para mim, ela é sempre de outros ou, no mínimo, distribuo a minha culpa com outros.

O verbo falir - que é defectivo, quer dizer, não é conjugado em determinadas pessoas e tempos verbais - por acaso até é um dos melhores exemplos para mostrar como a gramática deveria ser tão acarinhada como o combate à corrupção. Está bem, não lhe deem um ministério, mas façam pelo menos uma ASAE para perseguir os verbos mancos que nos corrompem a linguagem. Um verbo defectivo é como o tabaco: lança uma nuvem para espalhar as culpas. Se não posso dizer "eu falo", estou como o Marques Mendes quando juntou o Ricardo Espírito Santo aos investidores com cem euros de ações do BES. Todos no banco mau.

No devido momento, que é o tempo presente do indicativo, com a falência a quente, nunca ouvimos o Espírito Santo dizer: "Eu falo." Ou alguém dizer ao Oliveira Costa: "Tu fales." Essas exatas culpas não existem na nossa língua. Ao falir, na melhor das hipóteses de haver confissão, naufragamos juntos: "Nós falimos." Quando a coisa estiver a ficar esquecida talvez já possamos ouvir o Alves dos Reis, 90 anos depois do Banco Angola e Metrópole, dizer no pretérito perfeito: "Eu fali."

Os verbos defectivos dão desculpas manhosas para explicar os seus defeitos. Eles explicam a inexistência de uma sua determinada conjugação para não se confundir com um verbo usado mais frequentemente: no exemplo do "eu falo", no sentido da bancarrota, seria para não nos baralharmos com o verbo falar. Nos tempos em que o antigo "pára", de parar, se transformou em "para", o argumento é pífio. Em outros casos, os verbos defectivos explicam-se por a flexão abolida soar de forma desagradável. Como aqueles meus "aturdo" e "reavo" do primeiro parágrafo, que não existem e deviam existir. Vejam dois verbos sinónimos: retorquir e retrucar. Este não é defectivo e tem a conjugação completa, por exemplo diz-se "ele retruca." Já o defectivo retorquir impede o "ele retorque". Pois eu retorquirei até que a voz me doa que o proibido "ele retorque" soa muito mais decente do que o "ele retruca", tão evocador de truca-truca.

Aqui chegado, decido ser mais radical. Já não quero um departamento tipo ASAE que cuide das mazelas dos verbos mancos, falhados, incompletos. Por mim, abulo os verbos defectivos todos. Eles precisam mesmo de um Ministério da Gramática que prepare a comissão liquidatária. Acabar com eles: cada buraco de conjugação em determinadas pessoas, tempos e modos verbais será preenchido pela palavra que vai de si. Millôr Fernandes, mestre das palavras, não hesitou quando fez uma peça teatral onde falava de computar. Titulou a obra: "Computa, computar, computa." E, apesar do que dizem certas gramáticas e gramáticos, aquele verbo passou a ser completo e não defectivo.

Os portugueses deixam as lacunas nos verbos continuar porque cedem perante a primeira dificuldade. Quem debate na televisão não diz "eu brando este argumento" com receio de que o tomem por mole. Como há dúvidas sobre a primeira pessoa do presente do indicativo, ninguém diz "eu esculpo", mas depois os escultores madeirenses fazem o que fazem... O gerente da loja mete-se por um longo discurso e agarra-se ao gerúndio - "ressarcindo o cliente sei que Vexa. vai satisfeito..." - quando devia dizer, tão-só: "Claro, a loja ressarce!", que infelizmente ainda não existe.

Mas vai passar a existir, não vai? Reparem, o verbo agir é muito mais antigo do que o verbo emergir, não é? Andamos a agir pelo mundo fora há mais tempo do que existem aulas de natação e bodyboard na Nazaré... Está aí a explicação: já há "eu ajo" que fez do agir um verbo completo. Mas no emergir não há meio de aparecer os "eu emirjo" e os "que vós emirjais"... Mas um dia eles virão à tona, não é? Se não vierem, eu coloro a minha vida de cinzento, carpo, exauro de tristeza, enfim, bano das minhas relações quem fale de forma defectiva.

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