É uma bela frase, a do cantor Salvador Sobral depois da polémica: "Sempre falei duas vezes antes de pensar." E ele tira desse seu hábito uma lúcida conclusão: "Esta minha característica tem a sua parte boa e também a parte má." Falar com o coração na boca é isso, é bom. Permite ir para lá das palavras ouvidas e encontrar a autenticidade de quem fala. Mas falar num repente, sem medir, pode também levar ao que não queremos. O cantor, no concerto, não ofendeu - isso faz-se com má-fé, vontade de ferir. Para tais funções usam-se palavrões, insultos, escárnio. Salvador limitou-se a uma palavrinha de mau gosto. De meu mau gosto. Eu já escrevi aqui, contra outros, palavras para ofender, más - e não me lembraria de usar aquela que ele usou em palco. E não há mérito nenhum em mim, só isto, não gosto daquela palavrinha. Meu bom gosto. Que outros a usem, não concluo grande coisa sobre eles (nem do gosto deles) - por isso a discussão que por aí anda sobre a palavrinha do Salvador diz mais sobre os polemistas do que sobre ele. Escreveu-se muito sobre a palavrinha dele. É que somos, quase todos, candidatos a superintendente das Belas-Artes, do supremo Bom Gosto. No Segundo Império francês, ninguém ocupou melhor o cargo que Émilien Nieuwerkerke, fraco escultor mas exímio em tapar o "mau gosto" pelos museus. Por certas partes das estátuas, ele distribuía "as folhas de vinha do senhor Nieuwerkerke." Continua a ser uma função muito requestada.