Síndrome de Estocolmo

O Daesh conta com a histeria dos nossos media para o máximo efeito; esquece que ela tudo banaliza. Que começamos a integrar os ataques como "mais um". Que ao terceiro seguido já não lembramos o primeiro. Até com o medo nos maçamos.

Este terrorismo é diferente daquilo a que estávamos habituados porque não tem alvos específicos, visa o terror pelo terror." A frase - cito de memória - foi dita na sexta, na SICN, por uma pivô. Será? Este terrorismo - no caso, o tipo de ataque ocorrido em Estocolmo, como antes em Berlim, em Londres, em Nice - é diferente? Em quê, de quê?

OK: os ataques "low tech" (usando "armas" de acesso universal, como automóveis ou facas), comuns por exemplo em Israel, são até certo ponto uma novidade na Europa - e se inquietam pela sua clara facilidade e pelo facto de serem impossíveis de evitar, também nos dizem que está a ser difícil montar outros, com recurso a explosivos e armas e por definição muito mais mortíferos. São, paradoxalmente, um sinal de maior segurança, não de menos. Mas quanto ao resto, o que há de tão diferente? Por exemplo o ataque de Breivik em 2011 na Noruega, que alvo ou objetivo específico tinha além do de matar o maior número possível de miúdos (jovens socialistas numa festa)? Queria protestar, diz o próprio, contra a "islamização da Europa" e castigar os "esquerdistas" que segundo ele estão a permiti-la. OK. Isto é um "objetivo específico"? Sê-lo-á tanto como "castigar os infiéis do Ocidente" ou "criar o terror nas cidades ocidentais" ou "difundir a mensagem da jihad", não?

Olhemos para o terrorismo dos anos 70 e 80 do século XX europeu - coisa que convém, para nos situarmos quanto àquilo a que hoje se denomina por "onda de terror nunca vista". Qual foi o "objetivo específico" do quarto ataque terrorista mais mortífero de sempre na Europa Ocidental (85 mortos, incluindo várias crianças, e mais de 200 feridos), o que ocorreu a 2 de agosto de 1980 na estação de caminho de ferro de Bolonha? Atribuído a um grupo neofascista, do qual dois membros foram condenados a prisão perpétua, o massacre, nunca reivindicado, tem sido alvo de várias releituras, inclusive judiciais - com julgamentos anulados - e ainda em 2011 a justiça italiana seguia outras pistas, relacionadas com o terrorista Carlos. Como falar de objetivos "específicos" neste caso?

De resto, na semana em que a ETA, seis anos após renunciar à luta armada, entrega armas e explosivos, cabe recordar que a organização separatista basca e a sua congénere da Irlanda do Norte, o IRA, foram nos últimos largos anos da sua atividade mortífera descritas como meras organizações mafiosas que continuaram a operar muito tempo para além do momento em que já não tinham nenhum objetivo descortinável que não elas próprias.

A sempiterna necessidade de encontrarmos "novidade" e "narrativa" no que sucede, aliada à aparatosa falta de memória nos media, parece pois estar a criar uma leitura da realidade que mais não é que um favor propagandístico ao Daesh. Dizer que os ataques atribuídos à organização são diferentes de tudo e que estão a causar um terror nunca sentido antes na Europa é mesmo o que esta quer. Afirmar, por exemplo, como também fez a tal pivô, que "é o nosso modo de vida que está sob ataque" nada mais é que citar a propaganda do Daesh: somos infiéis, toda a nossa vida está errada, temos de nos submeter ou morrer. Mas não consta que quem se diz Daesh ou quem o Daesh diz que age em seu nome proceda a inquéritos, antes de se fazer explodir, despejar a kalash ou ceifar corpos com o camião, sobre quem entre as prospetivas vítimas rezou ou não virado para Meca nesse dia. E toda a gente insiste em esquecer que onde a organização soma mais ataques e mortos é, de longe, nos países de maioria muçulmana. Total treta, portanto: falar de religião como real motivação dos atentados é escamotear o facto de o Daesh ser uma associação de malfeitores que usa o Islão como estandarte e engodo para os delinquentes que visa aliciar.

"Chega de ser cúmplice da publicidade do terror (...). Em Estocolmo, um criminoso atropelou propositadamente pessoas. As supostas razões dele não me interessam e não as ajudarei a divulgar", escreveu Daniel Oliveira no Facebook. Há meses, escrevi aqui algo mais radical: que se devia encarar a hipótese do blackout mediático destes acontecimentos. Era, e eu sabia-o (como o Daniel sabe que a dele é), uma afirmação de desespero: a autofagia ululante, junkie de audiências, da lógica mediática recusa, sob o disfarce da "liberdade de informação", toda e qualquer racionalidade e tem mais horror ao silêncio que a qualquer outra coisa. Mas este pior que temos e somos, este estúpido colaboracionismo com quem nos mata, pode, afinal, ser também uma defesa. O Daesh conta com a histeria dos nossos media para o máximo efeito; esquece que ela tudo banaliza. Que começamos a integrar os ataques como "mais um": "Outro carro a matar pessoas? Onde foi agora?" Que ao terceiro atentado seguido já não lembramos o primeiro. Que, como com as crianças sírias de borco na praia ou mortas por gás pimenta, nos cansamos de sentir, deixamos de querer saber. Até com o medo nos maçamos.

Do mesmo autor

Mais em Opinião

Conteúdo Patrocinado

Mais popular

  • no dn.pt
  • Opinião
Pub
Pub